Normalmente nunca diria isto, mas vou ter de o dizer... Idiocracy é um dos piores filmes que já vi na minha vida... mas que vale a pena dar uma vista de olhos. Por muito estranho que pareça é mesmo verdade. Apesar do filme ser mesmo mau, o cerne do filme merece uma reflexão, nem que seja só por 10 minutos.
Um soldado americano (Luke Wilson) é escolhido para uma experiência secreta envolvendo hibernação prolongada. Ele foi escolhido por ser um gajo absolutamente mediano e sem ligações familiares. Junto com ele vai também participar uma prostituta (Maya Rudolph), "emprestada" pelo seu chulo a troco de favores. A experiência acaba por correr mal devido a uma escândalo com o chulo, e o que deveria ser uma coisa com duração de um ano, acaba por ser esquecida e prolongar-se por 500 anos. Quando o soldado mediano finalmente acorda no futuro, 500 anos mais tarde, descobre que a inteligência foi extinta e que a América é uma sociedade tão estupidificada que ele é seguramente o humano mais inteligente à face da Terra. É então escolhido para resolver uma série de problemas... resultado de causas verdadeiramente estúpidas.
Idiocracy está num limbo. Teoricamente é uma comédia de ficção científica, mas na realidade nem é uma coisa nem outra. Como comédia é um contrassenso pois para além de não ser nada cómico, ainda por cima é um tipo de comédia que só é apelativo para o tipo de pessoal que está literalmente a criticar. Como ficção cientifica é mesmo só porque se passa no futuro, porque nem a história é nova (ou original) nem sequer o tema é muito aprofundado para além dos óbvios sketches. Para além disto, o próprio filme esteve envolvido numa disputa bastante feia com os estúdio da Fox. O que é absolutamente compreensível vendo o teor do filme. Até a Foz News é descaradamente gozada... Os estúdios ficaram com o filme completamente feito em carteira durante um ano e só o distribuíram em meia dúzia de cinema, sem promoção nenhuma, sem trailers, sem nada. Foi mesmo só para cumprir o contrato que previa a estreia em cinema. E depois o filme desapareceu do público... Idiocracy merece destaque precisamente por causa disto tudo. Como é possível que um filme que é essencialmente mal feito, sem distribuição, sem marketing, sem trailer e que quase caiu no esquecimento se torna uma referência da comédia politica entre os críticos e o público e ainda arranja o "título" de filme de culto? É um mistério.
Mas se há uma resposta certa, acho que é por o filme tocar num ponto muito sensível, e basicamente, por apontar para o elefante no meio da sala da América... A estupidez. Não vale a pena estar aqui com grandes rodeios. A América, outrora o grande centro de mentes brilhantes está a tornar-se cada vez mais estúpida. Uma maioria de pessoas elegeu o Donald Trump como presidente, portanto está tudo dito. Não é por nada que Mike Judge, o realizador que já tem créditos como o criador, produtor e dono das vozes de Beavis and Butt-Head, tem sido referido como um grande profeta. Depois de Donald Trump como presidente, acho que ninguém estranharia muito se agora fosse eleito um wrestler (como a personagem de Terry Crews) ou um culturista sem qualquer formação política ou social. De certa forma o filme é premonitório por ir mais além do racional e mostrar que o ridículo se pode tornar realidade, e também porque sendo uma comédia pode brincar com todos estes temas muito sérios. Muita vezes vi referida até a expressão: "o filme que lentamente se vai tornando num documentário social"... É estranho, mas é verdade. A linguagem utilizada, já muito longe do inglês, cheia de jargão e siglas... Uma comunidade manipulada e controlada por grandes corporações que apenas querem que a sociedade seja uma população de consumidores acéfalos... As séries e filmes sem continuidade tipo jackass que estreiam em primeiro lugar nos cinemas americanos... A omnipresente hipersexualização... de tudo, basicamente... As pilhas de lixo infindáveis provocadas por um consumismo desenfreado... Enfim... a realidade que ninguém quer ver ou admitir...
A realidade é que esta ficção é bem mais real e muito menos futurista e utópica do que parece. Este tema do homem que acorda no futuro para perceber que a humanidade se estupidificou ao ponto de quase se aniquilar não é nova. No Time Machine do H.G. Wells isto já é em parte mencionado. No conto The Marching Morons de Cyril Kornbluth também já se trata da temática sobre o que é que acontece quando se tem uma sociedade em que a população se expande exponencialmente e ao mesmo tempo há uma uma falta de pressão evolucionária...
Falar da estupidez crescente na sociedade daria para uma site completo porque as razões são imensas e muito interligadas. E aí tenho que dar o braço a torcer porque Idiocracy toca em quase tudo de uma forma muito leviana, mas ao mesmo tempo muito acertada. Vai desde o pormenor da Fox News com os seus apresentadores musculados e apresentadoras quase de mamas à mostra, passando pela crítica a uma sociedade dominada pelo marketing das grandes empresas que diz que "os electrólitos são tão bons que substituem a água simples" e que assim levam a uma catástrofe ecológica. E quem diz electrólitos, poderia dizer L. Casei Imunitass...
E se se avançar um pouco mais no tempo, ainda temos as redes sociais que têm sido o grande megafone desta estupidez crescente e alarmante que muita gente já percebeu que vai acabar mal. Mas não se pode dizer mal das redes sociais nem dos seus malefícios... porque gera imensa receita ("i love money, don't you?" deve ser a expressão que aparece mais vezes no filme...) e imensa gente adora as redes sociais e já nem sequer conseguem viver sem elas. Se este tema entrasse no filme (ainda nem sequer tinham grande expressão na altura da estreia), seguramente o filme teria mais 1 hora de duração... Pode ser que Mike Judje volte ao tema mais tarde... ou se calhar é melhor não o deixar dizer mais nada para não tocar novamente em pontos sensíveis...
De certa forma, Idiocracy é um olhar satírico para dentro. É como uma parte da América se revê e como tem noção de como o mundo começa a ver a própria América. E têm razão. Não tenho dúvida nenhuma, que cada vez mais, o mundo olha para a América, não como a grande super-potência de outros tempos, mas como o grande centro exportador de estupidez para o resto do mundo...
Estupidez é uma coisa aparentemente hereditária e altamente contagiosa. Isto fica bem demonstrado nos geniais primeiros minutos. E, cada vez mais me apercebo, que afinal pode não ter cura. E isto sou eu a ser um bocadinho optimista, porque na realidade o meu cérebro pessimista o que me diz é que a estupidez não tem cura e que eventualmente vamos estar bem fodidos por não tratarmos deste problema a tempo... Este tema da estupidez chateia-me. Fico com comichões e dá-me vontade de bater em alguém... é melhor ficar por aqui e não me alongar mais... ...
Sinto-me muito dividido em relação a este Idiocracy. Nunca o veria novamente de tão mau que é, mas sou obrigado a recomendá-lo pela reflexão que obriga a fazer... ○ - ●●●●

Quando era miúdo adorava o Jerry Lewis. Era o gajo mais cómico que alguma vez tinha visto. Era quase como ver um desenho animado. Facto para o qual muito contribui a parceira com o realizador Frank Tashlin. Não é coincidência esta maratona de filmes realizados por Tashlin com Jerry Lewis no principal papel. Tashlin fez grande parte da carreira como realizador de desenhos animados daí que o tom notoriamente cartoon dos filmes assente que nem uma luva com as personagens caricaturais de Lewis. Na realidade, Jerry Lewis fez sempre o mesmo papel... o papel de Jerry Lewis, o trapalhão de bom coração que contra todas as expectativas e todas as rasteiras das personagens "más", acaba sempre por triunfar no final feliz.
The Disorderly Orderly é outro filme de Jerry Lewis, igual em quase tudo a todos os outros e em que apenas muda o cenário e a profissão do personagem principal. Aqui, Lewis é Jerome Littlefield, um empregado de hospital naturalmente desastrado e sempre a meter-se em situações caricatas. Jerome queria ser médico mas é impedido porque tem uma doença rara e muito especial: empatia a mais. Todas as doenças que os pacientes têm, ele acaba por sentir os mesmos sintomas. Relegado para um mero interno, acaba por ficar encarregue dos trabalhos mais chatos. E cómicos... E sempre que mete água é salvo pela compreensiva responsável superior (Glenda Farrell). Pelo meio, descobre que uma antiga paixão do secundário está lá internada com uma depressão (Susan Oliver) e também há uma enfermeira que está apaixonada por ele (Karen Sharpe). No papel da enfermeira mais "chata" e que grita mais alto, há novamente Kathleen Freeman, uma presença habitual nas produções Jerry Lewis.
Apesar de um ou outro bom pormenor, como por exemplo o quebrar da quarta parede, The Disorderly Orderly é mais do mesmo. Mas mesmo sendo uma repetição de uma repetição de uma repetição, os filmes de Jerry Lewis têm sempre uma carga tão positiva, verdadeira e inocente que não consigo deixar de os ver. ●●

Um dos primeiros filmes de mafiosos que vi foi o Scarface com a mirabolante e inesquecível personagem de Tony Montana. Acho que os mafiosos daquele tempo não se comportavam daquela maneira romantizada, no entanto acho que efectivamente a ficção acabou por moldar a realidade. Mesmo que não seja verdade, o públicoede cinema e não só, apenas consegue ver um mafioso desta maneira. E de uma forma estranha, acho que qualquer mafioso só se consegue ver retratado assim. Violento, ganancioso e apenas com um objectivo: chegar ao topo da escada e ser o rei absoluto de tudo.
Scarface é exactamente isto. É o percurso de Tony Montana, um cubano exilado em Miami na década de 80, que com a ajuda do seu inseparável amigo Manny, violentamente vai subindo os degraus da hierarquia mafiosa. Dos "pequenos", sanguinários e sujos trabalhos iniciais contra os cartéis colombianos de droga a mando do grande figurão de Frank Lopez e Omar, o seu irascível capataz, até lhes tirar o tapete debaixo dos pés (e a tosse) e conseguir finalmente chegar ao topo do pirâmide. Mas um percurso assim tão violento e traiçoeiro vai ter obviamente consequências trágicas e o império da droga de Tony Montana pode ruir a qualquer instante.
Este excelente Scarface de Brian De Palma é na realidade um remake do clássico Scarface de 1932. Mas aqui, o detalhe de ser um remake é mesmo apenas um detalhe histórico. Não tem nada de pejorativo. O filme é tão bom e "original" na concepção (mais um argumento fantástico de Oliver Stone) que só pode ser considerado um remake porque tem a mesma figura central como protagonista e estrutura narrativa de base. Se no original a base é a proibição do álcool e os seus meandros ilegais, nesta adaptação é o tráfico de droga e tudo o que se conhece em torno no negócio. As diferenças na história são irrelevantes porque o núcleo não é propriamente a ilegalidade do negócio, mas sim a ganância do protagonista. Sendo Brian De Palma um mestre incontestado, Scarface é um daqueles filmes inesquecíveis.
Mas muita da força do filme vem dos actores. Steven Bauer, Michelle Pfeiffer, Mary Elizabeth Mastrantonio, Robert Loggia e F. Murray Abraham não são só secundários. São verdadeiras personagens, com estruturas robustas e grande personalidade que enchem a tela e enriquecem todo o filme. Mas o destaque principal tinha mesmo de ir para Al Pacino. Aquela mistura de cómico louco e gangster cubano é irrepetível. Tal como disse no início, acho que esta performance acabou por cristalizar na mentalidade colectiva a aparência, os trejeitos e o comportamento do típico mafioso. Não se consegue olhar para um mafioso e vê-lo de forma diferente do Tony Montana. Um mafioso tem realmente de ser assim para ser considerado um mafioso de jeito. Tem de ser ganancioso e violento, sem empatia, mas por outro lado tem de ser sensível e aberto às coisas belas da vida. Tony Montana é uma mistura estranha que deveria fazer um gajo virar a cara, mas estranhamente tem uma certa atracção. Não sei explicar muito bem isto. Ou se calhar até sei... Por exemplo, desde o primeiro contacto visual, Tony procura incessantemente por Elvira mesmo que esta o mande dar uma volta constantemente. Ele é tão insistente que acaba por casar com ela, mas durante todo o filme não se lhes vê um único momento de intimidade. Até o beijo no final do casamento é quase invisível com aquele véu impenetrável. De certa forma, o encanto e a atracção de Tony Montana existe porque ele é um símbolo do eterno desejo de se ter o que não se tem. E depois, quando consegue o que quer, parte para outra demanda em busca de outra coisa qualquer que não tem... É complicado...
Scarface é um dos meus filmes favoritos e Tony Montana é uma das personagens que me ficou para sempre. Obrigatório. ●●●●●

Juntar Martin Scorcese, Robert De Niro e Jerry Lewis num só filme deveria ser um festim para mim. São três "instituições" que fazem parte do meu imaginário cinematográfico e são nomes que com cresci e evolui a ver a filmes. Mas nem sempre as coisas saem bem quando se mistura tudo o que gostamos...
Rupert Pupkin (Robert De Niro) tem uma ideia e uma obsessão. A ideia é a de que ele pode ser o novo Rei da Comédia. A obsessão é o seu grande ídolo Jerry Langford (Jerry Lewis), o famoso apresentador de um talk show com stand-up. Após um incidente em que Rupert salva Jerry de uma fã enlouquecida, os dois conhecem-se e Jerry incentiva-o a seguir uma carreira na comédia. Mas quando Jerry o relega para um plano secundário e o rejeita, Pupkin decide uma abordagem mais radical: com a ajuda da psicótica Masha (Sandra Bernhard) vai raptar o apresentador e exigir como resgate uma actuação de stand-up a solo no seu programa.
Tenho de admitir que vejo qualquer coisa com o selo Martin Scorcese. Para mim é uma marca de qualidade e sei logo à partida que vou ver uma coisa em condições. No entanto, Scorcese devido à sua elasticidade de temas, já me deu alguns amargos de vista. The King of Comedy foi um desses amargos. O que não deixa de ser estranho porque vejo sempre o filme muito bem referenciado, com muito boas críticas tanto do público como dos especialistas. Tenho de admitir que não gostei nada disto. Acho que se ficou pelo meio do caminho. Nem consegue ser cómico, nem consegue ser dramático. Fica ali num limbo que nem é carne nem peixe. Apesar da boa actuação, até o próprio Robert De Niro, parece perdido num jogo de personagens onde não se sente à vontade.
Obviamente tem os seus pontos positivos, principalmente ao nível dos pormenores de realização de Scorcese e da excelente fotografia. O filme não me cativou e acabei por me distrair... Isto aconteceu em particular com o facto de não conseguir desligar do facto de como este filme é parecido com o novo Joker e não só porque partilha uma história muito similar. Estive a ler umas coisas sobre o filme e descobri que uma das ideias propostas (pelo Jerry Lewis) era de que no final, Pupkin devia matar o Langford no seu show final. Scorcese achou que era demasiado violento e deixou a ideia de fora. Estranho, não é?
Se eu me distraio com um filme, isso normalmente quer dizer que lhe falta qualquer coisa. No caso de The King of Comedy acho que lhe falta mais comédia e mais intensidade dramática. Aliás, acho que lhe falta muita coisa. A personagem de Pupkin é detestável no mau sentido. Apesar de se compreender a obsessão nunca causa nenhuma empatia. O tema central que é objectivamente o culto da personalidade, da pessoa famosa, nunca é o ponto central. Os pontos positivos (todos técnicos) atenuam estas falhas, o que faz com que The King of Comedy seja perfeitamente "visível" mas que não "marque" tão profundamente como outros Scorceses... Foi uma decepção inesperada... ●●

Em Who's Minding the Store?, Jerry Lewis é Norman Phiffier, um moço trapalhão que namora com Barbara, uma simples ascensorista numa grande loja, tipo centro comercial. Mas como é óbvio isto não podia ser assim tão simples. Na realidade, Barbara não é uma simples ascensorista... Ela é sim a filha da riquíssima dona da cadeia de lojas com quem não se dá nada bem, e que trabalha lá só para chatear a mãe... A senhora Tuttle, a mãe odiosa não concorda com o namoro e por isso giza um plano para afastá-los: contratar Phiffier para trabalhar na mesma loja onde Barbara trabalha e fazer-lhe a vida negra para ele se despedir e acabar também com o romance indesejado. Mas Norman é tão trapalhão quanto obstinado o que faz com que o resultado final possa não ser o desejado...
Para além de Jerry Lewis também se pode ver Jill St. John como Barbara Tuttle, John McGiver como o pai, John P. Tuttle, e Ray Walston como Mr. Quimby, mas o destaque só poderia ir para Agnes Moorehead que no papel da maléfica Phoebe Tuttle, mais parece uma Cruella DeVil em carne e osso.
Jerry Lewis faz novamente de... Jerry Lewis, mas desta vez numa loja! Há muita confusão, muitos tombos, muitas caretas e muita coisa a partir-se, mas para mim há pouca comédia... A única cena que me ficou verdadeiramente na memória é uma em que Lewis faz um truque de mímica com uma máquina de escrever ao som de música... Achei simplesmente brilhante. Na cadeira de realizador está mais uma vez Frank Tashlin, uma presença habitual nos filmes com a marca Jerry Lewis. Who's Minding the Store? é mesmo só para coleccionadores e apreciadores... ○○○

Jerry Lewis é um daqueles gajos que fazem parte do meu imaginário cinematográfico e eu nem sequer sou fã de comédias. Acho até que a comédia desta altura (anos 60) está tão datada que nem sequer faz sentido hoje em dia... Mas também posso estar enganado... Bem, não interessa....
The Ladies Man é o Jerry Lewis a meter-se em trabalhos como sempre acontece.
Lewis toma o papel de Herbert H. Heebert, um jovem que recentemente acabou o curso na universidade e decide ir trabalhar como servente numa mansão particular. Como é óbvio tinha de haver uma confusão pelo caminho. E a confusão é o facto de Herbert ter uma aversão a mulheres devido a um desgosto amoroso e a tal mansão onde acabou de arranjar trabalho ser na realidade uma espécie de hotel exclusivo para mulheres... Mulheres lindíssimas mas com muitos caprichos, particularidades e excentricidades. Este é o mote para uma série de trapalhadas bem ao jeito Jerry Lewis.
Para além de Jerry Lewis há uma série infindável de actrizes em pequenos papéis, sendo que o destaque tem de ir Helen Traubel como a dona da casa, para Kathleen Freeman como a responsável pela casa e para Buddy Lester que tem provavelmente a cena mais cómica de todo o filme. Também há uma cena com uma filmagem em directo para a televisão que é muito boa. E também há uma cena de dança muito estranha com uma das personagens mais misteriosas que é muito boa... Há alguns bons pormenores por aqui... Um dos destaques tem mesmo de ir para o gigantesco e complexo cenário criado para dar corpo ao filme. Na realidade, quase tudo se passa neste cenário interior, que parece uma casa de bonecas gigante, que é um dos maiores alguma vez construídos.
Para além do papel principal, Jerry Lewis também escreve e realiza este The Ladies Man. Como acumulou várias funções (de actor e realizador), Lewis pediu à produção que junto da câmara de 35 mm lhe juntassem um pequeno monitor de video para poder ir acompanhando as filmagens on-set. Sem querer, Lewis acabou por criar um "assistente de vídeo" que a partir desse momento foi aproveitado por outros realizadores e que acabou por se tornar um standard nas produções até ao dia de hoje.
The Ladies Man é uma comédia de outros tempos. Apesar de ter um ou outro bom pormenor, está muito datada e acho que só agradará aos fãs mais hardcore de Jerry Lewis. Para mim, será sempre puro saudosismo. ●●

Em 1951 estreava The Day the Earth Stood Still para espanto dos frequentadores de cinema. Em 2008 chegou aos cinemas um remake com o mesmo título. A história de base para esta nova adaptação vem realmente do filme e não do conto original, o que demonstra que por si só o filme já é uma fonte de inspiração directa e o quanto foi marcante. Apesar de passar mais de 50 anos desde a estreia do original, as alterações na história não são assim tão substanciais, o que demonstra também que há qualquer coisa de universal e intemporal na mensagem do filme.
Tal como no original, uma misteriosa nave, agora uma misteriosa orbe verde, aterra na América no Central Park. Junto com outros especialistas, Helen Benson (Jennifer Connelly) é uma cientista que é chamada de emergência para resolver esta crise repentina e responder a questões prementes. De dentro da nave sai um extraterrestre com forma humana - que mais tarde se saberá que se chama Klaatu (Keanu Reeves) - e junto com ele, vem também um ameaçador robot gigante. À chegada, a mensagem de Klaatu é de paz e ele diz que vem salvar o planeta Terra. O choque entre civilizações não corre bem e Klaatu é preso e levado para interrogatório. Mas Klaatu tem alguns truques na manga e consegue fugir com a ajuda de Helen e revela que vem salvar a Terra... dos humanos que sem consciência ecológica têm vindo a destruir o planeta.
As comparações com o filme original são óbvias e o cerne da questão continua a ser o mesmo: o conflito. Mas se no primeiro filme, o conflito era a Guerra Fria e a ameaça era a proliferação das armas nucleares, nesta nova versão, o conflito é ecológico e a ameaça é a obliteração do mundo natural. No resto do filme tudo se mantém mais ou menos igual. Obviamente que tendo as ferramentas digitais ao serviço, Scott Derrickson usou e abusou deste artifício. Até em situações em que não faziam falta nenhuma, mas a necessidade de dar velocidade à acção é quase imperativa hoje em dia. Paradoxalmente é o seu maior problema. Mas por outro lado, ajuda bastante como é o caso do robot GORT que invés de ser uma simples "lata metálica" acaba por aparecer totalmente retransformado e muito mais ameaçador que o original. E muito maior também. E para mim, a grande figura do The Day the Earth Stood Still será sempre aquele robot. Aqui, os upgrades são mais que evidentes. GORT agora é significado de Genetically Organized Robotic Technology, uma espécie de forma biológica composta por milhões de nano-robots devoradores de matéria e auto-replicantes. Uma ideia absolutamente aterradora se pensarmos bem. GORT é tão poderoso, que ao contrário do que aconteceu no primeiro filme em que a electricidade é desactivada temporariamente (daí o dia em que a Terra parou), aqui ela é desactivada mundialmente e de forma definitiva, numa clara alusão à necessidade de refrear o ímpeto de destruição da natureza.
Keanu Reeves encaixa perfeitamente no papel de Klaatu. Reeves nunca foi um actor do meu agrado porque me parece pouco expressivo em termos faciais. Não sei explicar muito bem este fenómeno, mas neste caso (como noutros papéis) acho que fica impecável. Jennifer Connelly é a nova humana "compreensiva" e como actriz, Connelly terá sempre a minha aprovação. O restante pessoal é mesmo muito secundário como é normal nestas produções mais mainstream (Kathy Bates, Jaden Smith e John Cleese) por isso o único destaque terá de ser para o Jon Hamm, não pela performance, mas porque é uma versão moderna do original "Hugh Marlowe", replicando exemplarmente a personagem, ao ponto de copiar inteiramente o look físico original. As personagens são todas muito boas, mas acho que a personagem estereotipada do "humano intolerante e desconfiada" da mudança e da novidade é sempre de realçar...
The Day the Earth Stood Still não sofreu muito com o efeito remake moderno. Continua a ter bons momentos e bons pormenores e acabou por se reinventar com uma nova mensagem anti-conflito, desta vez, enveredando pela questão ecológica e com efeitos mais permanentes. Não afronta o original e vê-se bem. ●●

Nesta altura de pandemia em que o cinema literalmente parou é uma boa altura para ir ao baú e desenterrar os clássicos. E nada melhor para isso que revisitar uma dos grandes clássicos da ficção científica, The Day the Earth Stood Still, que só pelo título seria um dos melhores filmes para descrever a situação actual.
A história passa-se na altura da Guerra Feira, quando um objecto voador misterioso é detectado a viajar a velocidades impossíveis pela atmosfera da Terra. Para surpresa de todos, o OVNI aterra gentilmente num parque em Washington. O pânico instala-se. Rodeado por forças militares fortemente armadas e hostis, do OVNI acaba por sair o que aparenta ser um homem "normal", acompanhado por um robot. O extraterrestre de forma humana chama-se Klaatu e o seu fiel e robusto robot dá pelo nome de GORT. Apesar da mensagem do extraterrestre ser de que vem em paz, o primeiro contacto entre as duas civilizações é muito pouco encorajador e não corre nada bem, já que um dos militares, em pânico, dispara contra ele. Isto faz com que percebam o enorme poder destrutivo do misterioso robot que o acompanha. Afinal, o que quer Klaatu? Será ele o mensageiro da esperança para um mundo em constante conflito? Ou será apenas o derradeiro ponto final da Humanidade?
The Day the Earth Stood Still é mesmo um dos grandes clássicos de sempre. A mensagem é tão actual agora como o era na época do embate surdo entre as duas super-potências nucleares. É inegável que este filme é um reflexo do seu tempo (a proliferação de armas nucleares), mas a história funciona bem em qualquer altura. Pensando bem, duma forma ou de outra, a humanidade parece que está sempre em conflito. Seja como for, a história é excelente. É baseado no conto de Harry Bates, Farewell to the Master, que diga-se recebeu apenas 500 dólares pelos direitos de autor. Outros tempos, sem dúvida. Não obstante este pormenor, a adaptação para cinema difere do conto: no original, o robot chama-se GNUT e no final revela que ele é que é o mestre do humanóide (que não passa de um clone com pouco tempo de vida) e não o contrário; daí o título original.
Michael Rennie como Klaatu, Patricia Neal como a compreensiva companheira humana e Hugh Marlowe no papel do homem intolerante, tratam dos principais papéis. Mas apesar de estarem todos bem, sinceramente, aqui o principal papel vai mesmo para as implicações de toda a história. Apesar das falhas cientificas (Klaatu diz que vem das profundezas do universo, mas a distancia fornecida é do interior do sistema Solar) que demonstram uma enorme inocência e desconhecimento científico tanto da produção como do próprio publico, The Day the Earth Stood Still tem uma simbologia muito própria que não é visível logo à primeira vista. Por exemplo, o nome terrestre que Klaatu adopta para se misturar com os humanos é "Carpenter" (Carpinteiro) numa clara alusão ao cristianismo que não pára por aqui. O facto de aparecer misteriosamente com uma mensagem de paz, aviso e conciliação; a personagem feminina chama-se "Mary"; e até o facto de Klaatu a determinada altura morrer e ressuscitar também não pode ser coincidência. É uma coisa engraçada que estes filmes antigolas têm: parece que há sempre um segundo sentido para além do que se está a ver.
Na cadeira do realizador está um senhor do cinema que dispensa apresentações, Robert Wise, que fez filmes de todos os estilos e para todos os gostos... e prémios. Para não ser maçador, apenas alguns exemplos para se perceber o calibre do homem: The Sound of Music, The Andromeda Strain, Star Trek: The Motion Picture, The Haunting e West Side Story. Acho que não é possível ser mais ecléctico. No lado sonoro, outra lenda, Bernard Herrmann, o mestre das orquestrações "estranhas". Aqui, o uso do teremim (um instrumento totalmente electrónico) ajudou a cimentar aquela que é "a" música da ficção científica...
The Day the Earth Stood Still continua a ser interessante hoje em dia, mesmo que tenha perdido uma parte da envolvência histórica daquele período marcante da história. Merece pelo menos, um lugar de destaque junto de outros grandes clássicos da ficção científica. ●●●

The Artist é uma homenagem a um tempo de Hollywood tão distante que a maior parte das pessoas já nem sonha que existiu. A história é sobre o actor George Valentin, uma ubíqua e famosa estrela de filmes mudos que, ao mesmo tempo que se enamora com uma jovem dançarina, começa também a ver a sua carreira entrar em declínio devido ao aparecimento dos filmes "falados".
Homenagem talvez não seja a palavra mais apropriada para classificar The Artist. Acho que reflexão seria a palavra mais indicada. É neste período que se dá uma cisão muito grande no cinema, entre o status quo do mudo e a novidade dos filmes sonoros. Se para os estúdios foi uma oportunidade de inovar e assim chamar novos clientes, para os actores foi uma revolução demasiado disruptiva. Toda a forma de actuar teve de mudar e aconteceu quase da noite para o dia. Estrelas mundialmente estabelecidas como Douglas Fairbanks e Mary Pickford de um momento para o outro ficaram quase no desemprego e e até lendas como Charlie Chaplin se ressentiram. Volátil como sempre, o público queria coisas novas e o novo era o sonoro. O cinema mudo estava condenado juntamente com todas as equipas de produção, estúdios, actores e técnicos que não fizessem (ou não conseguissem) a passagem para o som. Aquele jeito de actuação teatral, tipo pantomina, tinha chegado ao fim...
A personagem de George Valentin é nitidamente Douglas Fairbanks. Aliás, no auge da sua depressão, enquanto vê uns filmes antigos com aventuras do Zorro, na realidade o que se está ver é um filme de Douglas Fairbanks, mas com algumas cenas de close up protagonizadas por George Valentin.
Num filme mudo, a performance dos actores é radicalmente diferente. Tem de ser mais dramática, exagerada e, por vezes, até caricatural porque sem palavras (nem outro som qualquer) é obviamente muito mais difícil de chegar ao público e transmitir emoções. A actuação é uma mistura de emoções físicas que apenas a música de fundo pode acentuar. Não digo que seja mais difícil ou mais fácil, mas parece-me que é outra coisa completamente diferente. E por isso tenho que destacar Jean Dujardin, que sendo obviamente um actor moderno parece ter vindo directamente do tempo do cinema mudo. Está tão perfeito que se fosse possível recuar no tempo e inseri-lo na altura do filmes mudos, acho que o público nunca notaria a diferença. De certa forma é Jean Dujardin desta forma tão verosímil, tão anos 20, tão silencioso e emotivo que dá a sensação de se estar realmente a ver um filme da era do cinema mudo. Está tudo muito bem feito neste The Artist, mas Jean Dujardin é 50% do sucesso do filme. Uma performance que merece todos os prémios e mais alguns.
No sentido contrário, o resto do casting não salta tanto à vista. Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell e Penelope Ann Miller servem bem como actores de suporte mas não passam muito disso. No caso de Bérénice Bejo o caso é ainda mais gritante, porque é peça fundamental do argumento. Não é que Bejo esteja mal, mas simplesmente não se sente a química nem o romance entre os dois actores. Há muito mais química negativa entre Jean Dujardin e Penelope Ann Miller em breves minutos (que era a intenção do argumento, num casamento em decadência) do que química positiva entre os dois amantes durante o filme todo. A discrepância entre Bérénice Bejo e Jean Dujardin é tão grande que para mim é mesmo a grande falha do filme. E claro que não podia deixar passar em branco a minúscula participação de Malcolm McDowell.
O filme é muito fiel àquela altura do cinema e muito pormenorizado (até tecnicamente) ao ponto de ser filmado com menos frames para dar aquele look acelerado tão típico dos filmes da era muda e até na própria proporção do ecrã que usa. Não fazia muito sentido simular um filme mudo sem ser naquele enquadramento 4:3 meio "quadrado", pois não?
The Artist é uma pequena pérola que, passado o impacto e choque inicial de se perceber que o filme vai ser totalmente mudo, irá deliciar a maior parte do público. A música não começa muito bem (parece algo dessincronizada da acção), mas depois ajusta-se perfeitamente para suportar emocionalmente todas as cenas. A história de decadência, regresso e reatamento amoroso é universal, por isso nunca falha. E aquele final simpático a fazer a transição para os grandes filmes musicais dos anos 30 e 40 (grande cena de dança, já agora) é simplesmente perfeito. Nota-se que foi um filme muito bem pensado mesmo antes de chegar a ser filmado e daí um enormíssimo destaque para Michel Hazanavicius, quer seja pela realização, pela preparação ou pela escrita. Até no pormenor de a primeira palavra a ser proferida em todo o filme ser "cut" e a última a ser "action" para dar uma continuidade pós-filme. Muito bom. Muito bem pensado. The Artist vê-se muitíssimo bem e é totalmente recomendado. ●●●


Alguns factos curiosos que encontrei nas minhas pesquisas. Este foi apenas o segundo filme mudo a ganhar prémios nos Óscares. O primeiro tinha sido Wings em 1927. A última vez que um filme totalmente a preto e branco tinha ganho o maior galardão de Hollywood tinha sido em 1960 com The Apartment. Se as referências a antigas estrelas do cinema mudo são constantes, elas chegaram aos rcenários. A casa da personagem de Peppy Miller é na realidade a antiga casa de Mary Pickford que mais tarde viria a casar com Douglas Fairbanks, uma lenda do cinema mudo, cuja vida e carreira, sem dúvida nenhuma é a base para este The Artist. Entre outros pormenores, notei também naquela cena aberta da escadaria, que havia ali algo familiar; descobri que aquela enorme construção metálica de escadas é nada mais nada menos que o átrio do Prédio Bradbury... onde foram filmadas algumas das cenas mais icónicas de Blade Runner... há coisas que não consigo mesmo esquecer... Mas para mim, o facto mais curioso de todos, foi ter sido necessário uma equipa europeia, fazer um filme europeu (é tudo francês...) para mostrar uma faceta de Hollywood de uma forma que Hollywood nunca teve capacidade de fazer. Isso sim, é que é curioso...
Vamos já ao cerne da questão: Hotel Artemis não é um grande filme, no entanto tem os seus pontos positivos. Logo para começar tem uma boa história de base, se bem que depois enverede pelo previsível e pelo caminha mais fácil. Tudo se passa num futuro próximo em que a cidade de Los Angeles está a ferro e fogo, cheia de violência e motins a estalar por todo o lado. A razão principal para estes acontecimentos catastróficos foi a privatização da água e o constante aumento do preço que a torna incomportável para os cidadãos. Espero que não seja um acontecimento premonitório... Mas também é uma questão de se esperar e logo se verá... Adiante. No meio de toda esta confusão, uns ladrões decidem aproveitar a oportunidade, já que a polícia está ocupada com os motins, e assaltam um banco. Pelo meio roubam também (sem o saberem) o rei do crime da cidade e metem-se em problemas tanto com a polícia, como também com os mais duros criminosos. As coisas correm mal com a polícia, e como um dos assaltantes fica gravemente ferido, eles vão ter de recorrer ao Hotel Artemis, uma espécie de hospital fora do sistema, criado por criminosos, para tratar criminosos em fuga. A responsável pelo "hotel" é a Jodie Foster que tem a ajuda preciosa do encorpado segurança Dave Bautista.
Se a história começa a ficar cada vez mais "perra" e a entrar em campos mais "negativos" com a desnecessariamente trágica história pessoal da enfermeira, por outro lado temos um ponto muito positivo que é um casting muito jeitoso. Sterling K. Brown, Sofia Boutella, Jeff Goldblum, Zachary Quinto e Charlie Day, para além da eterna Jodie Foster e do surpreendentemente bom actor Dave Bautista. Juntos, dentro do hotel/hospital sitiado, criam uma química engraçada que torna o filme de certa forma estiloso e muito ritmado e fluído.
Hotel Artemis (de Drew Pearce) tinha potencial para algo mais mas ficou preso nas rédeas do facilitismo do costume. Não quis fugir do arquétipo do filme de acção e isso quase sempre prejudica a qualidade geral de um filme. Assim, Hotel Artemis, tornou-se apenas em mais um filme, como quase nada de especialmente único, mas que no entanto está bem construído em termos de história e relativamente desenvolvido ao nível da estrutura das personagens. Vê-se bem. ●●

Um história de assaltantes a bancos igual a tantas outras. As coisas correm bem até que correm mal. Den of Thieves parece uma mistura de Sicario, Heat, Training Day com umas pitadas de The Usual Suspects... Nem é bem uma mistura... é mais um best of das melhores cenas destes bons filmes. A partir de determinada altura percebe-se que vai haver um twist mais ou menos previsível mas não se sabe qual nem quando. Enquanto via o filme só pensava: no momento em que se percebe que vai haver um twist, o próprio conceito de twist já está arruinado, não é verdade? Pensei que seria pelo meio do filme mas afinal ele acaba por aparecer mesmo no final. O que acabei de fazer agora mesmo é o perfeito exemplo de um spoiler... Mas também não vale muito a pena pedir desculpas porque o filme nem sequer justifica. Esse é mesmo um dos grande problemas do filme. Para além das referências óbvias a todos os outros filmes referidos antes, é mesmo previsível. Diria mesmo, demasiado previsível. Ainda pensei cá para mim: isto está tão previsível que vai dar aqui uma volta inesperada pelo meio... Mas não... Ainda por cima acrescenta algumas falhas graves de argumento para ligar partes da história, como por exemplo numa cena em que os dois antagonistas se cruzam num quarto de hotel para partilhar uma prostituta... Fiquei literalmente de sobrancelha levantada a pensar: WTF? Como é que...? Porque é que eles não...? Bem. Não interessa.
Dá a impressão que houve um esforço maior por parte de Christian Gudegast em instruir os actores em como pegar e disparar correctamente numa metralhadora do que propriamente o tempo investido na criação de uma boa história e sem falhas. Todo o filme se desenvolve em volta dos dois antagonistas (Gerard Butler e Pablo Schreiber) e reduz o restante casting (O'Shea Jackson Jr., Curtis '50 Cent' Jackson, Maurice Compte, Brian Van Holt) a meros bonecos com grandes armas e músculos que simplesmente acompanham a história até ao confronto final. É gritante a falta de investimento na personagem de O'Shea Jackson Jr., que para todos os efeitos acaba por ser central em toda a história. Não há mesmo muito a dizer sobre este Den of Thieves que até tinha muitos elementos para se poder tornar num bom thriller. A grande coisa positiva foi ter descoberto Pablo Schreiber, um gajo que parece ter um carisma especial e é muito bom actor. Den of Thieves é um bom filme para ver tiros de variadíssimas armas e pouco mais... Vê-se e esquece-se de imediato. ○○○

Uns anos mais tarde após as três primeiras demandas, Indiana Jones regressa para mais uma aventura. Tudo se passa na década de 50, e desta vez, os inimigos são os frios e calculistas soviéticos e o artefacto perdido são umas caveiras de cristal... que são extraterrestres. Não só a personagem regressa mais velha e mais cansada, como também o próprio filme parece estranhamente já datado e desfasado dos anteriores. Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull é um filme que não entendo. Acho mesmo que nunca deveria ter acontecido e nunca deveria ter chegado às salas de cinema. É um desfecho (será?) inglório para uma saga memorável. Se o segundo filme (Temple of Doom) recebeu alguma crítica (até da minha parte) por fugir à "mitologia" dos outros dois, então o que dizer deste Kingdom of the Crystal Skull? Este filme não parece ter nascido no seio da mesma equipa criadora dos outros três. Parece que um ovni se despenhou na saga. E ovni até foi - sem querer - um bom paralelismo porque toda a história gira em torno de umas misteriosas caveiras de cristal que não são mais do que os crânios de uma civilização extraterrestre que ficou presa no tempo dos Maias... WTF? Mas o que é que se passou aqui? Ainda por cima, tendo por base toda a cultura Maia e afins? Não havia mais nenhuma história que se pudesse desenvolver aqui para além desta coisa ridícula dos extraterrestres? Cenas mitológicas? Artefactos estranhos e poderosos? A busca pela Atlântida? Parece-me que foi uma oportunidade perdida para mais uma boa aventura. Assim, o que ficou foi uma história desconexa, estranha e de tal forma ultra-fantasiosa que perde alguma da lógica verosímil dos outros filmes. Logo de início deu para perceber que algo não ia correr bem... Basta pensar que o filme começa com o Indiana Jones a fugir e a sobreviver (!) a uma eminente explosão nuclear recorrendo unicamente a um frigorífico indestrutível da década de 50... WTF? E aquela cena ridícula tipo Tarzan com os macacos e o filho do Indiana Jones (xxxx) a perseguirem carros numa floresta pendurados em lianas? WTF? Se a intenção era fugir da homenagem aos antigos filmes de aventura e passar para os antigos filmes de série B, acho que falharam redondamente. Há os filmes de série B com boas histórias e há aqueles que são simplesmente ridículos. A produção acertou em cheio na segunda categoria.
Harrison Ford volta como Indiana Jones num registo já evidentemente saudosista, ao mesmo tempo que parece cansado para o papel. Numa tentativa de voltar ao passado, regressa Karen Allen e ainda há a inclusão do esperado filho do Indiana Jones. Se a coisa corresse mesmo bem, estaria aqui a solução para uma nova geração de aventuras arqueológicas. Não foi o caso. Não sei o que aconteceu com Shia LaBeouf, mas de há uns anos para cá parece que queimou uns fusíveis. O moço tinha (e ainda parece ter) queda para a coisa, mas há algo de muito negro e pesado nas suas recentes aparições. Até mesmo num papel inócuo como este. Não sei porquê, mas até gosto do Shia, se calhar é mesmo pelo crazy eye... O restante pessoal até é de qualidade (Cate Blanchett, Ray Winstone, Jim Broadbent) mas estão todos reduzidos a personagens que parecem caricaturas. Destaque para um dos meus actores preferidos de sempre, John Hurt, que é um senhor em qualquer situação ou filme...
Instintivamente detecto padrões e reparei que sempre que o Indiana Jones não se cruza com os nazis, estranhamente o filme em questão decresce de qualidade. Da primeira vez (Temple of Doom) não funcionou lá muito bem e agora com esta cena das caveiras de cristal funcionou ainda muito pior. Será que vai haver uma terceira vez para comprovar a teoria? Se é para fazer uma idiotice destas, acho que o melhor é estarem quietos... ○○○

Indiana Jones (Harrison Ford) volta a defrontar os Nazis, mas para além do habitual artefacto mítico que é o centro da aventura, desta vez a questão é bem mais pessoal. O desaparecimento do seu pai, Henry Jones, Sr (Sean Connery) que procurava o Santo Graal para um rico industrial (Julian Glover), desencadeia uma série de acontecimentos, acção e aventuras sem paralelo. Há perseguições para todos os gostos, desde aviões, carros, motas, barcos, a pé e até de comboio. Ah! E também há cavalos e tanques de guerra! É só escolher. Dá-me a impressão que depois do desagrado generalizado com o anterior Temple of Doom, Steven Spielberg e George Lucas tentaram compensar o público com o máximo de diversão possível. E verdade seja dita, conseguiram-no totalmente, pois esta é a maior e a mais completa aventura do Indiana Jones. Só não suplanta o original, porque lá está... é o original.
Logo à partida nota-se uma carga muito mais positiva em torno de todo o filme. A fotografia é mais ampla e mais luminosa também. E depois a história centra-se mais entre o Jones, Pai e filho que é obviamente uma história de reconciliação, tema omnipresente no cinema de Spielberg. Antes mesmo de entrar na narrativa e nesta história de busca pela vida eterna que o Santo Graal pode proporcionar, há até um pequeno bónus para mostrar como um jovem intrépido se irá transformar no Indiana Jones (um saudoso River Phoenix) que todos conhecemos. Com isso ficamos a saber mais alguns segredos de como Jones se tornou Indiana Jones e assim fortalece e dá mais "chão" a umas das melhores personagens ficcionais de todo o cinema. The Last Crusade é uma saca cheia de prendas para os fãs. Têm-se acesso à história, aos questões pessoais, à família e vai até ao pormenor de dar a conhecer o porquê do "apelido" Indiana. Se Raiders of The Lost Ark, criou a figura e o mito Indiana Jones, The Last Crusade cristalizou-o na mente do público e fez-lhe um pequeno pedestal. Acho que se pode dizer que foram claramente estes dois filmes que realmente criaram o "universo" Indiana Jones e que os outros dois filmes são apenas interlúdios e pequenas aventuras secundárias...
Steven Spielberg quase que dá a mão à palmatória e presenteia toda a gente com o máximo de trabalho e truques possível. Dificilmente um filme de acção e aventura pode ser melhor que este. Não parece, mas este ainda um produto dos anos 80. Hoje em dia, num qualquer cinema, dificilmente alguém conseguiria identificar o ano de produção deste filme porque na realidade (como aconteceu tantas outras vezes com o cinema de SpielbergThe Last Crusade é um filme "moderno"... parece que estreou a semana passada.
Para além da presença de Alison Doody no papel de belísima mas dúbia agente secundária, ainda temos o regresso de algum do casting original (Denholm Elliott, John Rhys-Davies) que para além de lhe dar uma credibilidade ainda traz uma carga light e quase cómica. Foi uma excelente escolha e muito bem pensado. Não há praticamente nada a apontar como negativo neste filme. A par do primeiro filme, The Last Crusade é o meu preferido nesta saga Indiana Jones. Um remate perfeito para uma trilogia (quase) perfeita. ●●●●●

Depois de uma série de contratempos na China para recuperar um artefacto antigo, Indiana Jones (Harrison Ford) acaba por aterrar à força na Índia juntamente com dois novos companheiros: Willie (Kate Capshaw), uma  cantora de bar, tão bonita quanto estridente e Short Round, um miúdo de rua muito desenrascado (Ke Huy Quan). Já Índia, os três são requisitados para recuperar uma pedra mística que foi levada por uma misteriosa seita que representa uma autêntica força do mal. Pelo caminho, encontra um palácio "negro" e nas catacumbas vão tropeçar num culto secreto e sanguinário liderado pela maléfico Mola Ram (um inesquecível Amrish Puri) que usa a escravatura como força de trabalho e tem um gosto especial por sacrifícios humanos...
Indiana Jones and The Temple of Doom é para todos os efeitos a sequela do Raiders of the Lost Ark, mas na realidade, tecnicamente, é uma prequela ao filme original, porque esta história negra passa-se três anos antes dos acontecimentos das aventuras da Arca Perdida. Depois do imenso sucesso do primeiro filme, o público gritava por uma nova aventura do "James Bond" dos arqueólogos. O carisma de Indiana Jones e as suas aventuras tinham de ter seguimento. Logo no início do filme, nota-se que começou a aparecer a "marca" Indiana Jones, bem presente no logo e no tipo de letra, que por acaso até foi o único filme onde realmente aparece. Apesar deste pequeno pormenor, por aqui se nota que Temple of Doom é mesmo uma incursão negra no "universo" Indiana Jones. Dá a impressão que depois de feito, mais ninguém quis ter nada com ele... Verdade seja dita, Temple of Doom é estranho e demasiado sombrio. Muito negro, muito violento, por vezes racista, por vezes até mesmo gore, apesar de aqui e ali estar disfarçado com alguns artifícios cómicos. É escuro, desagradável e subterrâneo. Ele é sopa de olhos, ele é miolos de macaco para a sobremesa e ele é sítios húmidos, escuros e cheios de bichos venenosos. Que o diga a Kate Capshaw, que para além de ter uma personagem quase reduzida à "loira burra que grita", ainda teve de suportar cenas com centenas de insectos gigantes (vivos!!!!) em cima. É obra. É um reflexo do "mau ar" de Temple of Doom.
Não admira que toda a gente tenha detestado o filme. Durante algum tempo, simplesmente odiei este filme e recusava-me a revê-lo. Pensei durante muito que este nem sequer era um filme do Steven Spielberg. Não se parece nada com uma história saída da mente de Spielberg e George Lucas. Na altura via imensos filmes e especialmente devorava os filmes do Spielberg, que têm naturalmente, uma aproximação inocente e light dos acontecimentos, às vezes até um pouco infantil. Pensando bem... Não é esse o grande encanto da filmografia Spielberg? Mas em sentido contrário, Temple of Doom é absolutamente negro... Retirar corações ainda pulsantes do peito de uma pessoa? Queimar pessoas vivas num poço de lava? Por breves momentos, até o próprio Indiana Jones sucumbiu a esta magia negra e tornou-se uma personagem detestável... Era demais...
Mas com o tempo, as coisas foram mudando. Mesmo com este manto negro em cima, Temple of Doom, tinha todos os elementos originais. Indiana Jones estava lá com todo o seu carisma original, a aventura apesar de negra era fantástica e as cenas de acção eram espectaculares e non-stop. E de certa forma, os apontamentos cómicos e a introdução das duas novas personagens amenizavam um pouco o negrume. A apreciação foi mudando com o passar do tempo. Lá revi uma vez... duas... três... e comecei então a apreciar os pormenores da narrativa e do filme e já não me pareceu assim tão mau quando da primeira vez. Acho que foi o choque inicial. Foi uma transição demasiado radical do primeiro filme para este. Um gajo estava à espera de arrogantes nazis e apareceu um culto subterrâneo. Com o tempo aprendi a gostar de Temple of Doom. Não está ao nível do original, mas é uma boa sequela e um bom complemento às aventuras do Indiana Jones. ●●●○

Indiana Jones é um professor universitário de arqueologia mas também é um duro aventureiro que gosta de arregaçar as mangas e se for preciso, partir para a violência. Como é especializado em antiguidades clássicas, o governo americano contrata-o para encontrar a Arca da Aliança e assim assegurar que os Nazis não lhe conseguem deitar a mão e aceder ao seu imenso poder destrutivo. Jones inicia assim uma das maiores aventuras do mundo do cinema e que durará várias décadas...
A personagem e o filme é tão conhecido, tão transversal e tão ubíquo que já faz parte do conhecimento geral. Não faz sentido estar aqui a falar do filme propriamente dito.
A minha ligação com Raiders of the Lost Ark é profunda. O contexto no qual eu vi o filme é radicalmente diferente dos dias de hoje. Vi-o pela primeira vez por volta de 1985, o que quer dizer que o vi numa autêntica realidade alternativa. Nessa altura, quando se queria ver um filme tinha de se ir ao cinema. Mas por outro lado, os VHS começavam a dar os primeiros passos e lentamente começavam a invadir a casa das pessoas. O impacto inicial dos VHS não foi assim tão marcante porque havia muito poucos filmes nesse formato. E é aqui que começa minha ligação quase umbilical ao Indiana Jones. Se já era rara a pessoa que tinha um VHS (ainda existiam inclusive muitas TVs a preto e branco!!!...), mais raro ainda era a pessoa que tinha uma cassete. Note-se que a cassete tinha de ser um original pois não havia forma de fazer cópias. Só em termos comparativos, os preços destas "coisas": uma TV: cerca de 100 contos! Um leitor VHS: cerca de 100 contos! Uma cassete original: cerca de 15 contos! Portanto, era material "profissional" que só existia nos video clubes. No entanto, um tio meu lá perdeu a cabeça e conseguiu comprar uma cassete caríssima do Raiders of the Lost Ark. O filme tinha sido um marco no cinema de acção e um gigantesco sucesso de bilheteira e por isso lembro-me de ouvir os mais velhos a falar de como era espectacular. Da cena da bola, das aranhas, dos nazis e da arca perdida. Muito antes de ver o filme, já o tinha imaginado na minha cabeça. Mas nada me preparou para o impacto de ver o filme com os meus próprios olhos. Siderei completamente, apesar de ter acontecido numa TV minúscula (quanto comparado com os tamanhos XXXL de hoje em dia). Nessa altura, sempre que ia até casa do teu tio (e eram muitas vezes...) obrigatoriamente (re)via o filme. Também não havia alternativa... Eu e o meu primo sabíamos todas as cenas de cor, todos os diálogos, tudo... Devo ter visto o Raiders of the Lost Ark umas 20 ou 30 vezes. E isto, só enquanto era miúdo, porque depois continuei a revê-lo constantemente ao longo do tempo. Se estiver a ser transmitido em algum canal de TV, simplesmente não lhe consigo resistir. Aquela música parte-me todo... Oh! Começa automaticamente a ecoar na cabeça... Não só pelo filme, mas também pela lembrança daqueles momentos antigos em que o miúdo (acho que isso aconteceu com muita gente...) queria era ter um casaco de couro, um chicote e ir por aí à aventura, em busca de um grande tesouro, derrotando os inimigos pelo caminho, nem que para isso tivesse que ficar preso num túmulo egípcio cheio de cobras e esqueletos ou que tivesse de passar por baixo de um camião em movimento.
Este é um daqueles filmes fáceis de "criticar" porque o tenho gravado integralmente na cabeça. Agora mesmo começam (novamente) a ecoar as notas da música de John Williams que é sem dúvida uma das melhores de sempre. A marcha do Raiders é um hit intemporal assim como a restante banda sonora original. Poderia estar aqui a falar de tudo o que Raiders of the Lost Ark tem de bom, mas seria entediante. É preferível enumerar o que tem de mal, porque é muito mais fácil. Nada. Não tenho um único defeito a apontar a este filme. É dos filmes mais consensuais que já encontrei, tanto entre a crítica como entre o público. Mas como em tudo na vida, há sempre quem discorde. Já li, por exemplo, que a personagem do Indiana Jones é irrelevante para o desenvolvimento da história. Se se pensar bem, na realidade, os nazis conseguem ficar mesmo com a arca, mas inadvertidamente matam-se todos no final... E o restante filme, pergunto eu? É para ignorar? Aqueles cenários? As cenas de acção memoráveis? A bola gigante de pedra? As tarântulas? As cobras? Os túmulos egípcios? O Nepal? Todas as personagens?... Há críticas que não consigo mesmo entender... Bem... para mim, não existe melhor filme de acção. É um filme moderno que parece ter estreado ontem, mas que já vai com uns consideráveis 40 anos em cima. Para mim é um daqueles filmes intemporais e perfeito do princípio ao fim. O entusiasmo é tanto sempre que falo no filme que já me esquecia de mencionar os actores. Karen Allen, Paul Freeman, John Rhys-Davies, Denholm Elliott compõe o "núcleo duro" mas não há ninguém que destaque pela negativa. E depois há Harrison Ford, "o" Indiana Jones. Li muita coisa sobre o filme e sobre como Tom Selleck era a primeira escolha e quase ficou com o papel... Não. Não. Não. Toda a lógica do universo diz que apenas Harrison Ford poderia ser o Indiana Jones. Não consigo sequer imaginar outro actor naquele papel.
Raiders of the Lost Ark tem tudo o que procuro num filme de acção: bons actores numa boa história, com um bom ritmo e uma boa banda sonora. Só falta mesmo agradecer ao homem que praticamente sozinho criou o moderno cinema de acção: Steven Spielberg. Raiders of the Lost Ark é um dos filmes da minha vida e sem dúvida o filme que mais vezes vi. É a minha referência para todos os filmes de acção e até ao dia de hoje ainda não superado. Um marco do cinema absolutamente obrigatório. ●●●●● + ●

Dog Day Afternoon é baseado numa história real que se passou nos anos 70, quando dois homens assaltam uma sucursal do banco Chase Manhattan, em Brooklyn e acabam por se meter numa situação de reféns, ficando cercados pela polícia durante horas. Para piorar ainda mais o assunto, o banco quase não tem dinheiro... Como a realidade é mais estranha que a ficção, durante o impasse veio-se a saber que o propósito por detrás do assalto seria arranjar dinheiro para que um dos assaltantes conseguisse pagar a operação de mudança de sexo do namorado (wtf?!?)... Se fosse escrito assim, num guião, seria considerado certamente uma história absurda, mas lá está... a realidade é mais estranha que a ficção. E esse é um dos pontos que fica bem marcado neste argumento. A história vacila entre o drama, o thriller e a comédia. Tudo é tão despropositado e inverosímil que descontado o estado de total saturação e exaustão das personagens, Dog Day Afternoon mais parece uma comédia absurda. Mas a mão de Sidney Lumet é implacável e memorável. Conseguir aguentar um filme de duas horas neste tipo de tensão, sem nunca parecer cansativo ou repetitivo é obra de génio. Há sempre uma surpresa e um novo desenvolvimento que impele a história e o filme para a frente. Há um constante avolumar e depois um suprimir de emoções. Há sempre coisas novas a acontecer e há sempre um acontecimento ou um diálogo memorável à espera. Sidney Lumet é um mestre neste tipo de cinema "parado" e muito baseado nos actores e nos diálogos. Com uma lente objectiva e crítica, para além da temática homossexual e da mudança de sexo (muito à frente do seu tempo, diga-se), Lumet ainda consegue mostrar as distorções provocadas pelos media no público que rapidamente transforma um vilão no herói e vice-versa conforme a situação descai para um lado ou outro...
Em Dog Day Afternoon tudo pode parecer obra do acaso - como o rapaz da pizza a festejar por aparecer na TV - mas nota-se nos pormenores, que apesar do aparente improviso nos diálogos, tudo foi muito bem pensado e delineado. Vê-se isso, por exemplo, na banda sonora... que não existe. Dog Day Afternoon raramente tem música e pode-se dizer que não tem uma banda sonora porque assim adensa a tensão realista, retira o dramatismo artificial "dos filmes" e ainda lhe acrescenta um tom mais documental. É nestes pormenores que eu vejo a qualidade de um filme...
Falando em qualidade há que mencionar os actores. E não há outra hipótese que não seja destacar o Al Pacino. Que tour-de-force... Uma performance para ficar na história. Aquele aspecto e olhar tresloucado mas ao mesmo tempo tão objectivo. Neste filme, Pacino respira e transpira representação... e cinema. Aqui, mesmo sem abrir a boca, Pacino consegue dizer mais coisas com os olhos e com a alma (como por exemplo, nos dramáticos e angustiantes 15 minutos finais) que muitos actores numa carreira inteira. Brilhante. Sem Al Pacino naquele "ponto de rebuçado", Dog Day Afternoon nunca seria Dog Day Afternoon... E já agora, aquele grito para a multidão "Attica! Attica!" foi improvisado... Só por aqui se vê o nível de envolvimento do homem...
Os restantes actores estão também em grande nível. E não há um que se destaque pela negativa. Podia mencionar também John Cazale, Penelope Allen, Sully Boyar, James Broderick, Charles Durning, Chris Sarandon ou Lance Henriksen que só aparece uns minutos mas é determinante no desfecho da história. Todos os actores estão muito bem, porque nitidamente são bons e acima de tudo foram muito bem dirigidos por Lumet.
Apesar de ser baseado numa história real, as coisas em Dog Day Afternoon foram ligeiramente adulteradas. O incidente original foi tão marcante que ficou a fazer parte do treino policial quando confrontados com uma situação de reféns e multidões incontroláveis. No cinema, este género de "assalto a bancos que corre mal e acaba com uma situação de reféns" não é propriamente novo. Mas com esta vitalidade, com este guião fantástico e com este calibre de actores não é fácil de encontrar. Foi preciso recuar a 1975 para encontrá-lo...
Após o desfecho dramático, no epílogo fica-se a saber que Sonny foi preso após o assalto falhado e que cumpre 20 anos de numa prisão federal. Fica-se também a saber que Leon (mais tarde, Elizabeth) sempre acabou por fazer a operação e mudar de sexo. No entanto, a operação não foi paga com o dinheiro do assalto... A operação só foi paga quando o verdadeiro Sonny vendeu os direitos de autor da história para que se fizesse este mesmo filme. É estranho, mas o filme que é uma adaptação mais ou menos livre da história, acaba por ser o verdadeiro epilogo da história original... Estranho, não é? Acho que já disse isto algumas vezes, mas a realidade é mesmo mais estranha que a ficção... ●●●

Os elementos clássicos foram associados aos conceitos de terra, água, ar e fogo, para tentar explicar a imensa complexidade da natureza. A dedução parece lógica quando associada aos estados físicos da matéria: a terra para o sólido, a água para o líquido, o ar para o gasoso e o fogo para o volátil visível. Mas para além destes elementos sempre houve uma quase necessidade de um "quinto elemento", uma "quinta-essência" que seria um elemento "perfeito", estando ao nível do plano não-terrestre. Em tempo idos era normalmente associado ao éter, mas na realidade poderia ser qualquer coisa intangível mas extremamente poderoso.
Luc Besson pegou nestes conceitos e desenvolveu uma história simples mas extremamente coesa. No século XXIII, todo o universo vê-se confrontado com o Mal em estado puro. Para se defender desta força esmagadora, a Humanidade depende do Quinto Elemento, que de 500 em 500 anos aparece na Terra como protector dos restantes quatro elementos. Mas depois também há um taxista irascível chamado Korben Dallas...
Sendo um filme de ficção cientifica de acção, The Fifth Element não entra em grandes questões filosóficas. Quando Leeloo (Milla Jovovich), o "ser perfeito", cai literalmente do céu para o banco de trás deste taxista de muito mau humor (Bruce Willis), o universo vai ficar totalmente de cabeça para baixo...
O futuro apresentado aqui por Luc Besson não tem propriamente uma história muito original... mas isso também não interessa muito, porque virtualmente todas as cenas de The Fifth Element são muito boas. Logo para começar o look do filme e todo o design de produção, com um aspecto meio colorido, meio kitsch, é diferente de toda a restante da temática da ficção cientifica, que invariavelmente descamba no escuro e frio lado tecnológico da coisa... Depois as fatiotas estranhas mas muitos fixes de Jean-Paul Gaultier completam perfeitamente os sets extravagantes. As personagens são todas memoráveis mas há duas que se destacam: Zorg (Gary Oldman) como uma mistura de ditador maléfico e dandy ultra-capitalista e Ruby Rhod (Chris Tucker), uma espécie de celebridade entertainer futurista tão hilariante como irritante. Os actores estão tão à vontade na pele das suas personagens que numa das cenas até é capaz de se notar o Bruce Willis a tentar não se desmanchar a rir com a performance over the top de Chris Tucker.
The Fifth Element está repleto de bons pormenores. Desde os actores (Ian Holm, Luke Perry, Brion James), à realização cristalina de Luc Besson, passando pelo inteiro design de produção colorido, pela montagem rápida que dá um ritmo excelente ao filme até aos excelentes efeitos especiais que não se sobrepõe um guião consistente e tão coeso que parece à prova de bala. Há coisas que eu vejo e percebo logo que um filme é diferente (para melhor) do que é habitual. Apesar de ser um filme "comercial de efeitos e acção", por exemplo, aquela coisa já banal e quase obrigatória de haver um confronto final entre o "bom" e o "mau" aqui não acontece. Aliás, os dois antagonistas apenas se cruzam (literalmente) um única vez e por breves segundos.
Nota-se perfeitamente que Luc Besson queria fazer algo diferente. E isso até se nota no facto de nunca ter caído na tentação (e no erro) de fazer um sequela. Este é um projecto único e pessoal e isso transpira originalidade e alma. É puramente criativo e é diferente de quase tudo o que já vi nesta temática. E por isso mesmo é um dos meus filmes favoritos. Acho que é uma opinião partilhada por muito mais gente... Altamente recomendado. ●●●

Um funcionário de escritório (Griffin Dunne) vive a sua vidinha monótona. Um dia encontra por acaso uma jovem atraente (Rosanna Arquette) e trocam números de telefone. Já em casa, ele entra em contacto e marca um encontro no apartamento dela, no outro lado da cidade. Mas durante a viagem de táxi para o encontro, o dinheiro voa-lhe pela janela fora e então começa uma verdadeira aventura e uma tentativa desesperada para tentar regressar a casa...
Pelo caminho encontra-se com várias personagens excêntricas (Linda Fiorentino, Verna Bloom, Teri Garr, John Heard e Will Patton) e também assiste a toda a acção da noite como ir a um clube de música punk ou a um bar gay, para além de testemunhar um suicido, um assassinato, diversos roubos e ser perseguido por uma multidão em fúria... e uma carrinha de gelados. É a loucura nocturna da cidade que nunca dorme... After Hours é uma comédia bastante negra cheio de confusões, coincidências inacreditáveis e desencontros constantes...
Gosto muito deste filme, mas quando se o (re)vê com alguma atenção, são óbvias algumas das falhas nas ligações narrativas. Há algumas distorções inverosímeis e pequenas omissões de forma a que a história seja contínua e cíclica. Isto é verdadeiramente notável na cena final da fuga com a "escultura". Dá impressão que por muito inverosímil que fosse, o filme teria de começar e acabar da mesma forma. Fico com a impressão que Martin Scorcese e Joseph Minion começaram uma história que ira passar por vários pontos, mas sem ter um destino final objectivo... e a determinada altura não sabiam mesmo como sair dela. Aquilo que se vai passando na cabeça do espectador, em que uma pessoa fica na dúvida sobre o que vai acontecer com o personagem, acaba por ser o que de facto aconteceu com a própria realização... ninguém sabia muito como terminar este filme.
Mas lá está. Isto é andar à procura de pormenores para "martelar", porque é um filme do Martin Scorcese. No geral, a realização é soberba. A fotografia nocturna e o trabalho de câmara são fantásticos e está cheio de pormenores técnicos que dariam para encher um livro sobre como realizar um filme. A montagem é muito boa e dá um ritmo alucinante à narrativa.
After Hours é um filme estranho se associado ao mestre Scorcese. Não deve ser dos filmes mais memoráveis ou reconhecidos da carreira, mas na realidade é uma prova da versatilidade e do gosto pelo cinema do mestre. É inteligente, negro, cómico, original, dramático e é totalmente surreal. Uma cápsula do tempo dos anos 80 que no entanto é um filme intemporal. Ao fim de todos estes anos não perdeu nenhuma da vitalidade original e por isso é totalmente recomendado. ●●●○

PS: Uma das perguntas que fica em suspenso desde o principio do filme é porque é que o Paul não vai a pé para casa. Alguém já se deu ao trabalho de ver quando tempo demoraria a percorrer a distância entre a casa dele e o apartamento dela: é mais ou menos a duração do filme...
Baseado numa história verídica. Acho que é assim que convém sempre apresentar a história de Pedro e Inês. É tão inacreditável que parece material de poesia e lendas. Este novo filme de Pedro e Inês baseia-se na história original do Rei D. Pedro e da aia galega Inês de Castro, mas agora com base no romance de Rosa Lobato Faria que muda substancialmente o drama de amor de forma a mostrar a mesma situação ao longos dos tempos. Para além do narrativa clássica passada no século XIV, também se pode ver o desenvolvimento nos dias de hoje, em que os amantes são arquitectos, assim como num futuro distópico em que a história se passa numa realidade pós-civilização.
Como actores temos Joana de Verona como Inês, Diogo Amaral como Pedro, Vera Kolodzig como Constança e Miguel Borges como o infame Pero Coelho, mas o destaque vai para os papéis secundários: Custódia Gallego, a rainha Beatriz e João Lagarto, o rei Afonso IV fazem dois pequenos papelaços e nota-se que estão a léguas dos jovens actores. Sem entrar em grandes pormenores, o que noto é que há uma falta de intensidade dramática gritante aos actores portugueses. Na realidade parecem presos num estranho limbo: estão entre o laxismo das prestações rápidas de telenovela, misturado com aquela performance hiper-teatral de outros tempos.
Em termos de realização tenho que admitir que é a descair para o fraquito. António Ferreira dá um ar de sua graça no início (minúsculo, mas excelente o pormenor com os piscares de olhos) e no final, mas pelo meio tudo é demasiado uniforme e monótono. Não há uma cultura visual no cinema português. Parece que ou há uma coisa (visual) ou outra (narrativa). Não percebo esta lógica. Durante duas horas de filme, o enquadramento do filme é sempre o mesmo... Apenas por uma vez há uma filmagem diferente, fotografada de baixo para cima.
A estrutura da narrativa foi a grande surpresa. Não é que esta divisão em três linhas temporais seja uma novidade, mas está muito bem construída e acaba por ter uma boa fluidez, o que não é propriamente fácil de conseguir. A principio houve ali umas falhazinhas nas transições de umas linhas temporais para as outras, mas depois a coisa foi-se compondo até terminar muito bem.
Apesar da imensa melhoria que tenho notado neste últimos anos nos filmes portugueses, ainda há coisas que falham. A luz e as sombras são um elemento quase ausente e a música é sempre muito fraquinha e quase não tem expressão. Nenhum destes elementos é aproveitado como intensificadores dramáticos. E depois há falhas óbvias, como por exemplo a sobreposição do voz-off na cena em que Inês morre e que é suposto ser a mais dramática do filme... um autentico anti-clímax emocional que eu não consigo compreender. E volto à fotografia e realização... Não há um close-up. Os planos são quase sempre os mesmos. As câmaras estão sempre posicionadas à mesma altura. Não há pormenores... É tudo demasiado uniforme e às vezes o enquadramento e a luz transportam-me para a estética de telenovela. Não sei se será falta de financiamento, tempo ou mesmo falta de jeito e inspiração. O que sei é que acontece e está à vista. Limando estes pormenores, facilmente um filme português poderia rivalizar com qualquer outra produção estrangeira...
Esta nova versão de Pedro e Inês, no geral, até é um filmito consistente, que se vê bastante bem, mas poderia ser muito melhor se tivesse mais alguns pormenores e mais polidos. Os filmes portugueses estão cada vez melhores, mas ainda têm um longo caminho a percorrer... Ainda assim, um filmito muito aceitável. Recomendado. ○○○

It Might Get Loud é um documentário sobre três gerações de guitarristas. O "novo" Jack White, o "velho" The Edge e a "lenda" Jimmy Page. Apesar de não ser uma referência na área dos documentários, é uma excelente oportunidade para entrar na cabeça destes três guitarristas. Na parte do documentário propriamente dito, não há muito a dizer. Está muito bem feito, muito bem montado e nota-se que tem uma gigantesca produção por trás. A recolha de informação e a construção do background destes três artistas é muito boa. Do ponto de vista técnico é irrepreensível. Para mim só peca é por defeito, mas não é um problema do documentário em si. É muito restritivo mas é totalmente compreensível. Nota-se que a lógica foi tentar abarcar um período grande o suficiente para poder mostrar o mais possível do fantástico instrumento que é a guitarra eléctrica. Compreendo perfeitamente. Para demonstrar o desenvolvimento artístico ao longo dos tempos e de, pelo menos, os intérpretes mais reconhecidos, o mínimo que se poderia fazer era uma série com para aí uns 20 episódios. O problema não está no documentário propriamente dito, o problema é que a guitarra eléctrica já tem demasiada história para poder condensar em apenas 90 minutos. Se Davis Guggenheim (que já tem no currículo o excelente An Inconvenient Truth) fizesse uma série de documentários, sempre com três "convidados", teria material de trabalho para muitos anos. Mas também seria necessário que os intervenientes quisessem participar e, também, obviamente, que estivessem vivos. É por isso que me soube a pouco.
Para quem gosta de rock and roll, para quem gosta de uma grande guitarrada, para quem gosta do som da guitarra eléctrica, das distorções e dos efeitos das pedaleiras, este é um dos documentários obrigatórios. Como gosto de White Stripes, U2 e especialmente de Led Zeppelin, foi um gosto enorme ver este It Might Get Loud. Gosto das guitarradas meio punk, meio blues do Jack White, da mesma forma como gosto do som extremamente polido e agudo do The Edge... mas nada bate o velho mestre Jimmy Page. E poder vê-lo ainda a dar umas guitarradas valentes é um privilégio. E a parte em que Page está a curtir o Rumble On de Link Wray... é um momento simplesmente brilhante.
Para mim, a grande vantagem dos documentários em relação ao cinema convencional é que se aprendem mesmo coisas. Factos, quero eu dizer. Os documentários abrem horizontes e aguçam a curiosidade. É outro tipo de cinema, mas para mim é cinema na mesma. Aprendi mais uma série de coisas sobre guitarras e guitarristas, e aumentei substancialmente o meu leque de história, músicos e músicas de rock and roll. Nem que fosse só por isso, já valeu a pena. Muito bom. ●●●

 
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