É tão difícil distinguir estes filmes como criticá-los. A crítica é difícil porque estes filmes não valem nada como obra cinematográfica, mas preenchem uma lacuna muito importante. Quem é que não gosta de ver coisas a explodir? Quem é que não gosta de ver perseguições espectaculares? Aposto que até o mais snob dos críticos de cinema se esconde numa sala de cinema para se deliciar com estes filmes. E, tenho que admitir, tecnicamente, estes filmes são um portento. Seja ao nível de efeitos especiais, seja ao nível de som ou montagem, estes filmes são quase perfeitos. O problema é que são sempre a mesma coisa. A história é completamente prescindível e os actores só lá estão para darem boas fotos para os cartazes promocionais. Daqui por uns anos (ou meses), alguém faz outro filme do género e é exactamente a mesma coisa. A única coisa que muda é o tamanho das explosões, porque o público está à espera de algo ainda maior.
Eu vi estes dois filmes mais ou menos na mesma altura e teve imensa dificuldade em distinguir os dois. Estava a ver um filme e parece que estava a ver o outro. Só perguntava porque é que o Gerard Butler tinha deixado de aparecer ou porque é que o Jamie Foxx estava a aparecer noutro filme. Foi confuso. Vendo agora os trailers nem consigo lembrar-me muito bem qual dos filmes estou a comentar. Olympus Has Fallen e White House Down fazem-me lembrar uma altura em que os estúdios disputavam argumentos e todos os anos havia dois filmes com o mesmo tema. Ou eram vulcões ou situações em arranha-céus ou outro filme-catástrofe qualquer. Só mudavam os protagonistas e os cartazes. Parecia que um estúdio descobria que outro estúdio estava a fazer um filme do género x e não queriam ficar atrás. "Quem é que têm no papel principal? É o fulano. Então nós arrajamos o cicrano. E quanto explosões têm? Sete. Ui, então nós temos que ter oito." Parece a típíca competição peniana do secundário, só com a diferença que é tudo medido a película.
Dito isto, nunca consigo resistir ao efeito Roland Emmerich, que é rebentar com o máximo de coisas possível. Também não consigo resistir ao efeito Antoine Fuqua que é espancar o máximo de pessoas possível numa só sala. É por isso que toda a gente vê estes filmes, não é verdade? Ver grandes aviões em chamas e a embaterem no chão, helicópteros a explodir, tiroteios infindáveis, perseguições humanamente impossíveis, cenas de grande pancadaria e os maus a levarem uma grande sova no fim, ou a morrerem de forma atroz no final. É conforme a vontade do realizador. Ou dum painel de estudo de mercado. Ou do estúdio, não se sabe bem. Estes filmes são como um medicamento: preenchem aquela lacuna que é o vazio de acção que há em cada um de nós. São o antídoto possível para a rotina diária. Pessoalmente, mesmo sabendo de antemão que são uma nulidade artística e que não vou encontrar absolutamente nada de novo, eu preciso destes filmes e nunca perco a oportunidade de os ver. E só por causa disso, levam ●●○○○.

Durante os anos 80 proliferou um estilo de filmes que entretanto morreu: o fantástico. Nessa categoria muito própria, há um realizador que se destaca entre todos: Terry Gilliam. Ninguém consegue captar o tom fantástico, o surreal e o absurdo como Gilliam. Obviamente que ter no currículo a passagem pelos míticos Monty Python ajuda e muito. Não é de estranhar, portanto, que The Adventures of Baron Munchausen (1988) pareça mais um filme Python que um filme "Gilliam".
A história gira em volta da figura mítica do Barão Munchausen e das suas impossíveis aventuras. Seja na Lua, debaixo do mar, dentro de um peixe gigante, a lutar sozinho contra um exército de turcos, ou até contra a própria Morte, o Barão tudo suplanta graças à mais poderosa de todas as armas: a fantasia. Como por exemplo, puxar os próprios cabelos para não se deixar afundar no mar. Para além da loucura total, os elementos principais continuam a ser os mesmos de toda a filmografia de Gilliam: o embate da fantasia contra a burocracia e a papelada, a força da imaginação contra a força do músculo e a luta desigual contra algo muito maior que o próprio protagonista (neste caso, a Morte).
Gosto do filme porque me envolve em nostalgia. Foi um filme que vi na altura de estreia e sonhei com o filme durante meses. Tudo aquilo era tão estranho, tão surreal e tão absurdo que quase dava vontade que existisse mesmo para poder mergulhar naquele mundo extravagante juntamente com o Barão. Há pouco tempo, quando o revi, a única coisa que me passava pela cabeça, é que as aventuras do barão pareciam uma mistura híbrida de "O Principezinho" e das "Viagens de Gulliver" sobre o efeito de psicotrópicos. Pensando melhor, deve ser mesmo assim que funciona o cérebro de Gilliam.
Visualmente, é simplesmente fantástico. Os efeitos eram (e ainda são) muito bons, espectaculares e cómicos. As piadas são as típicas piadas Monty Phyton. Ou se amam ou se odeiam. Como sempre, Gilliam consegue rodear-se de grande actores como John Neville, Oliver Reed e Jonathan Pryce, já para não falar da constante presença de Phyton's como Eric Idle, ou nomes estranhos ao tema como Sting. Robin Williams aparece no filme como Rei da Lua, mas por qualquer motivo estranho aparece creditado como Ray D. Tutto. Quando se misturam personalidades como estes dois, acho que se pode dizer: "é típico". Uma Thurman, lindíssima como sempre, faz aqui umas das primeiras aparições... como musa. Parece que estava destinada.
A única coisa que posso apontar de negativo a este filme é que ficou preso entre dois mundos: nem é um filme de fantasia para adultos nem para crianças. Lá está: é um filme fantástico de Terry Gilliam. Apesar de não ser nenhuma obra prima, só isso basta.
Se é que isso é possível, The Adventures of Baron Munchausen, é muito mais "chalado" que todos os outros filmes "chalados" de Gilliam. Acho que essa é a palavra perfeita para classificar este filme: chalado. No bom sentido, claro. ●●●○○

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Bem, vamos lá a despachar isto. É assim que estes filmes têm de ser encarados. Como tirar um penso rapidamente para não doer tanto. Primeiro, Daredevil (2003). Advogado cego, transformado em super-herói que combate criminosos. Oportunidade única para ver Ben Affleck a usar uma fatiota de cabedal ridícula e Colin Farrell a fazer de criminoso com uma marca ridícula na testa. ●○○○○



Segundo: O sucesso de Michelle Pfeiffer como Catwoman em Batman Returns, foi tão grande que deu origem a um filme autónomo. O resultado é um desastre digital chamado Catwoman (2004). É pena, porque tinha tudo para resultar bem. O realizador é Pitof, homem dos efeitos especiais de Marc Caro e Jean-Pierre Jeunet (Delicatessen e Alien: Resurrection, por exemplo) e também realizador do excepcional Vidocq. Como Catwoman foi escolhida Halle Berry e como super-vilã, Sharon Stone. Parece tudo perfeito. Mas infelizmente, o filme resume-se a massacrar os orgãos visuais com efeitos digitais onde tudo parece plastificado ou um jogo de computador e a mostrar durante o maior tempo possível Halle Berry de roupa interior de cabedal. E já me esqueci onde entra Sharon Stone para além do cartaz e do trailer. É uma verdadeira incógnita como é que uma tão boa conjugação de factores dá origem a um filme tão miserável. ●○○○○



Por fim, Elektra (2005). Um filme que consegue apresentar todos os clichés dos (piores) filmes de acção. A rapariga jeitosa (Jennifer Garner) que quase morre, mas que regressa anos mais tarde - com treino de artes marciais, é claro - para se vingar. Tem uns toques de algo sobrenatural, mas é mesmo só para ter hipótese de colocar efeitos digitais no trailer. Assim como colocar Garner com roupas apertadas e sexys. Não tem qualquer implicação no desenrolar da história. É monótono, entediante, enfadonho, repetitivo e... não me consigo lembrar de mais adjectivos semelhantes. Horrível. ●○○○○

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Em 2003 saiu a adaptação para cinema de Hulk. Não é uma personagem Marvel que goste. Um monstro verde, de força raivosa incontrolável não é propriamente alguém que gere muitas simpatias, mas de alguma forma o Hulk consegue ter fãs. É obviamente uma reciclagem do velho Mr. Jekyll e Mr. Hyde, mas levado ao extremo, ou não estivéssemos a falar de super-heróis. Como não gosto muito da personagem, não conheço bem a banda desenhada, mas tenho ideia que é um daqueles casos em que não há super-vilões. Ou pelo menos, super-vilões em pé de igualdade. Logo aí, tem uma desvantagem, porque, como toda a gente sabe, se o super-heói não tiver alguém à altura, para que é que serve o super-herói? Por isso, inevitavelmente, o super-vilão tinha mesmo de ser o exército e a sua também força bruta. Ou pelo menos, aquela parte das forças militares que parece que não sabe parar e querem sempre mais e mais e mais. Este tema está presente nos dois filmes, mas é muito melhor tratado no primeiro filme.
A primeira coisa que me chamou a atenção no primeiro filme foi o realizador. Quando vi nos créditos o nome de Ang Lee, pensei que era um erro. O "senhor Sense and Sensibility" vai filmar o Hulk? O mesmo realizador que viria a chocar com Brokeback Mountain? Não podia ser. Pensei eu que devia ser um outro chinês com o mesmo nome. Mas não! Era mesmo "o" Ang Lee. Aguçou-me a curiosidade. Será que pela primeira vez, iria ver um filme de super-heróis que não fosse só explosões, perseguições, efeitos especiais e força bruta? Será que pela primeira vez, iria ver um filme de super-heróis em que no primeiro plano estivessem as implicações para a sociedade da existência de um super-humano? Nem uma coisa nem outra. Ang Lee ficou-se pelo meio. O que é óptimo. Não entrou no campo puramente filosófico da coisa, mas também não entrou no campo estritamente explosivo/efeito CGI. Dadas as circunstâncias (um super-herói "menor" com muito menos simpatizantes que outros do universo Marvel; o efeito não-novidade, dada a avalanche de outros filmes de super-heróis na altura), o que Ang Lee conseguiu fazer, foi provavelmente o melhor filme de super-heróis. Para já, porque é muito equilibrado. Não é uma maçada pseudo-filosófica da condição humana, mas também não é um ataque psicótico de CGI aos olhos e cérebro. Depois, porque até hoje, é o único filme que conseguiu verdadeiramente captar o estilo BD para uma tela de cinema. Há uma cena no meio do filme em que parece que literalmente estava a ver BD, mas animada. Um contra-senso, mas Ang Lee conseguiu fazê-lo. Este é a grande diferença entre ter um realizador maduro, com currículo fora dos filmes de acção e que tem ideias próprias, e um realizador "de estúdio", que pura e simplesmente segue o plano logístico de filmagens.
Eric Bana foi muito bem escolhido, porque de facto, parece que tem algo de Hulk escondido no seu interior. Nick Nolte está sempre bem e da Jennifer Connelly nem vou falar, porque tenho um fraquinho por ela e por isso sou totalmente parcial. Há umas cenas ridículas com uns cães gigantes em CGI que estragam um bocado o filme, mas de resto tudo bem. É desculpável. Hulk, é um filme de puro entretenimento, mas com algum miolo e com espaço para os actores. Não se pode pedir mais para um filme de super-heróis. ●●●○○



Incompreensivelmente, em 2008, saiu um reboot de Hulk. Para não confundir, chamaram-lhe The Incredible Hulk. Esta nova versão conta com Edward Norton no papel principal de Bruce Banner/Hulk e... mais nada! Ah! Esqueci-me que no início aparece o Tim Roth, que é um excelente actor até neste filme mau. Infelizmente, desaparece a meio do filme para dar lugar a uma criação horripilante em CGI, para contrapor aos poderes enfurecidos do Hulk. Também aparecem a Liv Tyler e o fantástico William Hurt mas parece que estão no filme apenas para dar um pouco de tempo de descanso ao pessoal dos efeitos especiais, que diga-se, fizeram o filme quase todo. Só por isto, deve ter tido muito mais sucesso comercial que o primeiro, porque tal como ouvi comentar na altura da estreia: "Este filme é muito melhor que o primeiro, porque tem muito menos "letra" e muito mais efeitos e acção". Isto é totalmente verdade. Então uma pessoa paga bilhete para ver gajos a falar? Claro que não! O que uma pessoa quer ver é o máximo de coisas a explodir, e de preferência, que sejam feitas em computador... Estava a ser irónico.
Do primeiro para o segundo filme as diferenças são abismais. Se o primeiro não é uma refeição completa, pelo menos é uma excelente tosta mista, bem servida de queijo e fiambre e com muita manteiga gostosa. Já o segundo é apenas uma chiclete de mentol que sabe a... chiclete de mentol. Daquelas que, independentemente da marca ou tamanho, sabem sempre igual, uma espécie de mentol artifical, e que passados cinco minutos, ficam duras, perdem todo o sabor e uma pessoa fica com aquela sensação de só estar a mastigar um pedaço de plástico. É um filme tão horripilante quanto a criação CGI do Tim Roth. ●○○○○


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Continuando a adaptação de BD's de sucesso da Marvel, chegou em 2011, Thor. Não é tão mau quando esperava, apesar de ser mais uma história plana, com bons de um lado e maus do outro. A mão de Kenneth Branagh nota-se, mas não consegue resolver todos os problemas inerentes a filmes de super-heróis. Custa-me um pouco criticar estes filmes, pois só imagino a trabalheira que é juntar um puzzle técnico de 150 milhões de dólares. Tecnicamente complexo não quer dizer que seja bom. Chris Hemsworth, que já li algures que é o homem mais sexy do mundo encabeça um elenco que se poderia chamar de luxo (Anthony Hopkins, Natalie Portman, Stellan Skarsgård e Idris Elba) se estivessem ali mesmo para representar e não para dar alguma credibilidade ao filme. O filme até é surpreendentemente melhor do que seria de esperar. Tem boas piadas e um ritmo descontraído. É entretenimento puro e duro e tem a história que toda a gente quer ver: o bom ganha no fim e o mau perde. Por acaso, o mau é irmão do bom e fica retido para a sequela à espera de boas vendas de bilheteira. Thor não tem nada de propriamente mau, mas não deixa de ser mais um filme de super-heróis que se vê e se esquece rapidamente... ●●○○○



Felizmente, para Tom Hiddleston - o actor que dá corpo a Loki, o irmão mau do Thor - as vendas de bilhetes foram um sucesso. Sendo assim, ele está de regresso para mais um incursão em Thor: The Dark World (2013), juntamente com grande parte do elenco do primeiro filme. Ainda bem, porque Hiddleston parece ser um bom actor apesar de nestes filmes andar sempre "disfarçado". a personagem dele perde outra vez no fim. Acho eu. Já não me lembro bem. Este filme consegue ser muito mais irrelevante que o primeiro, portanto tirando as explosões, os efeitos especiais caríssimos, as perseguições alucinantes e o martelo do Thor a voar, já nao me lembro de mais nada. Tem qualquer coisa a ver com um seres ancestrais e uma arma mitológica qualquer que... vai destruir a Terra. E não é sempre assim?... O Thor ganhou (como é óbvio), mas no final houve um problema qualquer com o irmão que se fez passar pelo pai. Foi tão memorável que já não me lembro do que aconteceu, mas sei que ficou com o final em aberto para um possível terceiro capítulo. Portanto, agora, é uma questão do estúdio fazer as contas e ver se deu lucro ou não... E não dá sempre?... ●○○○○

O que está na moda são os filmes de super-heróis. Depois do sucesso das bandas desenhadas, o cinema (re)descobriu todo o potencial dos super-heróis. Pudera. Enquanto houver teenagers com dinheiro para comprar bilhetes, é uma moda que não acabará tão cedo. Mas não é um fenómeno novo. Isto começou há umas décadas atrás e depois morreu. Aparentemente o público fartou-se do género. Ou então fartou-se da autêntica avalanche de filmes que são lançados. Nesta equação, também entra obviamente a fraquíssima qualidade da maior parte dos antigos filmes. A excepção mais visível é sem dúvida o Superman (com Christopher Reeve e Gene Hackman). E para provar a teoria que estes filmes são "usados" até à exaustão, foi sendo sucessivamente "assassinada" com filmes cada vez piores.
Para mim, o ressurgimento dos super-heróis e o ponto de viragem, foi quando Tim Burton pegou no Batman nos anos 90 (mais correctamente, em 1989) e se percebeu que filmes adaptados da BD até podiam ser bons e bem feitos. E a nova capacidade (quase) ilimitada dos efeitos especiais digitais também veio dar um grande empurrão. Depois apareceram os X-Men (filmes quase sempre bem feitos e com bons elencos). A partir daí, nunca mais parou. E, voltamos novamente à estaca da "avalanche"...
Um dos problemas que tenho com o blog, é a falta de tempo para escrever. Os filmes de super-heróis resolvem uma boa parte desse problema. Não há muito a dizer sobre estes filmes. São sempre iguais.
Os heróis já são hiper conhecidos das BD's por isso nem é preciso "criar" a personagem. As histórias são inevitavelmente as mesmas: bons de um lado, maus do outro; os bons e os maus disputam algo que pode destruir o planeta e/ou a humanidade; bons e maus confrontam-se; quando os maus estiverem quase, quase a ganhar a contenda, os bons dão a volta ao assunto e ganham no fim; os maus perdem, mas ficam em suspenso para uma possível sequela se o primeiro tiver sucesso nas bilheteiras. No caso do super-vilão morrer, no próximo filme aparece um outro super-vilão. É isto. Nos próximos tempos, irei debruçar-me sobre a tonelada de filmes com super-heróis que monopolizam as salas de cinema.

O primeiro Fantastic Four saiu em 2005. Como é o primeiro filme, tem de se mostrar como os super-heróis ganham os seus super-poderes. E com isto lá vai metade do filme. O super-vilão aparece (Dr. Doom) e ameaça o mundo. Os super-heróis salvam o mundo. O Dr. Doom fica em suspenso para a sequela. Fim.
É um filme para ver ao sábado de tarde. ●○○○○



O segundo filme da série, Fantastic Four: Rise of the Silver Surfer chegou às salas de cinema em 2007. Aparece o Surfista Prateado que é o capataz de Galactus (aqui aparece como um fumo preto colossal do tamanho de meio universo, que devora mundos em segundos, mas que no final deste filme demora uma eternidade para chegar da Lua à Terra). O Dr. Doom regressa, alia-se ao mau principal e ameaça o mundo. Os super-heróis ganham quase, quase no fim. Os maus desaparecem em fumo e presume-se que regressam na (possível) sequela. E é isto. É um filme para ver ao domingo de tarde. ●○○○○



CONTINUA...
Drive (2011) é um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos. Em grande parte, porque é algo totalmente novo. Parece um policial negro dos anos 60 (tipo Bullit), feito à maneira dos anos 80 (tipo To Live and Die in LA), mas com uma roupagem do século XXI (tipo... Drive). Pode parecer uma mistura esquisita, mas acaba por resultar bem. Muito bem.
Apesar de ter ouvido uns "zun-zuns" sobre o filme, não fazia a mínima ideia do que se tratava. Costumo evitar saber muito sobre os filmes em pré-produção para não perderem o efeito-surpresa e/ou para não gerarem muita expectativa. Neste caso, resultou perfeitamente. Houve momentos em que fiquei literalmente de boca aberta e a única coisa que conseguia dizer era: "isto é excelente!". Uma raridade, hoje em dia.
Não conhecia muito bem o trabalho de Ryan Gosling e também não conhecia Nicolas W. Refn. Lembro-me de há uns anos ter visto um pequeno, mas brilhante filme chamado Bronson, mas na altura não fixei o nome do realizador. Como não há coincidências, o nome comum é... Nicolas W. Refn. Bem, já não me esqueço mais.
Brilhante e singular realização, excelente banda sonora alternativa, grandes momentos de cinema, belíssima fotografia e um conjunto de actores de 5 estrelas. Albert Brooks, como uma espécie de mafioso freak coleccionador de facas é uma maravilha; Ron Perlman que... é o Ron Perlman! Basta estar lá e nem precisa de abrir a boca. Mas especialmente Ryan Gosling, que já tinha visto por aí em alguns filmes, e que sempre pensei que era mais um daqueles actores "bonitos" e pré-formatados de Hollywood. Grande erro. Ryan Gosling é excepcional.
A história não é nenhuma novidade, mas acaba por ser envolvente. A meio do filme, até parece que vai descambar porque começa a dispersar muito, mas depois acaba por manter a coerência.
Um solitário condutor profissional (que nunca sabemos o nome) ganha a vida como duplo de cinema, mas faz uns serviços extra menos convencionais como condutor de fuga em assaltos. Ele é o homem sem emoções, metódico, hiper-calmo, quase a roçar o psicótico que resolve as situações mais stressantes sem nunca hesitar. E sem nunca largar o palito dos dentes...
Tudo se complica quando se envolve com uma rapariga (a vizinha do lado, que tem um filho pequeno) e decide ajudá-la a ultrapassar algumas dificuldades. À boa maneira dos primeiros filmes dos irmãos Cohen, tudo se vai complicando cada vez mais e tudo corre da pior maneira possível. Especialmente, quando o marido da rapariga sai da prisão e volta para casa, arrastando a família para um mundo de violência e crime que o persegue. E é um mundo mesmo muito violento, que acaba por culminar num âmbiguo final dramático.
Quando vi o Bronson, notei muitas influências de Kubrick, especialmente da Laranja Mecânica. Por mim, tudo bem. Se é para "roubar", ao menos que se "roube" dos melhores. Em Drive, as influências continuam lá (parecem ter vindo do 2001) e manifestam-se em loooooongos e penooooososo takes. Não é que estrague o filme ou que o prejudique (acho que é até o que o diferencia dos restantes filmes), mas sinceramente, parece-me um pouco exagerado. É o único ponto menos positivo que posso apontar. Um pouco menos de lentidão (a personagem de Gosling já carrega toda a tensão do mundo só no olhar) e um pouco mais daquela sensação de adrelina quando se conduz um carro a alta velocidade e era um filme sem falhas. Tenho a certeza que com o tempo se irá afirmar como uma referência e será muitas vezes copiado. Quase, quase perfeito. ●●●●○

Mr. Holland's Opus (1995) conta a história de Glenn Hollande, um compositor com aspirações, transformado em professor de música contrariado. Ao longo de três décadas (dos anos 60 até aos 90), ele suporta tudo à sua volta: a mulher, o filho (dramaticamente com problemas auditivos), a escola e os seus alunos, com quem vai gradualmente desenvolvendo relações afetivas cada vez mais estreitas e pessoais. Com tudo isto à sua volta, Holland vai sempre adiando, ano após ano, a sua derradeira criação: compor uma grande ópera moderna americana.
É um drama com alguma intensidade e um tour de force de Richard Dreyfuss que tem aqui uma excepcional prestação. Dreyfuss "pesa" imenso neste filme: ele é literalmente o filme a girar à sua volta. Mr. Holland's Opus tem uma história muito boa, e especialmente muito bem contada e coerente, porque não se perde ao longo de um período de tempo tão grande.
Por causa do contexto escolar, é inevitável a comparação com o Dead Poets Society. Este Mr. Holland's Opus fica num patamar abaixo porque lhe falta melhores actores de suporte (safa-se William H. Macy) e porque sendo um filme que gira em torno de um professor de música, a música acaba por ser muito pouco explorada. Para mim, também é o exemplo de filme que podia ter ido mais longe. Tinha tudo para ser um daqueles "dramalhaços" que nos arranca lágrimas a toda a hora. não tendo grandes pontos negativos a apontar, também não consegue ser um grande filme. Ainda assim, é um filme que gosto muito e que recomendo sempre. ●●●○○

Há filmes que causam tanto impacto na estreia que têm obrigatoriamente que ter seguimento. É o caso de Robocop (1987). Deu origem a duas sequelas, uma série de tv, um jogo de computador, toneladas de merchandising e, recentemente foi alvo da nova moda de hollywood, o reboot.
A história de Robocop passa-se num futuro próximo (de 1987), numa Detroit distópica, onde o crime domina a cidade. Como se não bastasse, a cidade está prestes a ser totalmente privatizada e a cair nas mãos da OCP, uma mega-corporação omnipresente, omnipotente, corrupta e gananciosa que não olha a meios para atingir os seus fins. (Não deixa de ser curioso que o enredo do filme se tenha aproximado tanto da Detroit dos dias de hoje.)
A OCP tem apenas um propósito para a velha cidade: destruí-la e começar tudo de novo. Perante a impotência da polícia para travar a criminalidade, a OCP decide recorrer a robots para pacificar a zona, antes de iniciar a sua reconstrução total. A derradeira resposta ao crime urbano é o ED-209, um robot monstruoso e armado até aos dentes. Quando numa violentíssima cena, o ED-209 dá erro e mata alguns executivos da OCP, a corporação vira-se para um projecto alternativo, mistura de homem e máquina, chamado Robocop. Para isso, usam o que restou do polícia Alex Murphy (Peter Weller), violentamente morto por um grupo de perigosos criminosos com ligações à cúpula da OCP.
O filme tornou-se automaticamente num clássico da ficção científica, recheado de hiper-violência e crítica em forma de sátira às modernas sociedades de consumo. Apesar de não ser o primeiro filme de Paul Verhoeven em solo americano (o primeiro foi o excelente e esquecido Flesh & Blood) não deixa de ser uma "estreia" de arromba e um marco para o cinema e para o próprio Verhoeven. A partir daqui, seguiu quase sempre o mesmo registo violento e satírico (como em Starship Troopers e Total Recall), o que aparentemente levou a que nunca se afirmasse como grande realizador que é. Talvez o grande problema de Verhoeven é ser demasiado excessivo para Hollywood.
E, não há dúvidas, Robocop é excessivo. Para já, na própria mensagem e temática do filme: deturpação dos media, corrupção e violência generalizada, autoristarismo, ganância desmedida, desumanização, capitalismo selvagem e perversão da própria natureza humana. Depois, visualmente, para um filme de base "comercial" da altura, contém algumas das cenas mais violentas que já vi. Isto é o que poderia afectar o filme negativamente. Não foi o caso, porque o positivo suplanta em muito o potencial negativo.
Em primeiro, Robocop tem um conjunto brilhante de actores, a começar por Peter Weller, passando por Ronny Cox, Kurtwood Smith e Miguel Ferrer que dão uma seriedade impecável ao filme. Em segundo, tem uma história muito boa e totalmente original (convém sublinhar bem este factor, original) que criou um ícone/super-herói do cinema, assim como um supervilão muito diferente do habitual, a maléfica OCP. Em terceiro, os aspectos técnicos: a banda sonora é excelente assim como toda a componente de som; os efeitos especiais eram do melhor que havia na altura e, por se tratarem de robots, ainda se aguentam bem, mesmo passado tanto tempo.
Por último, Robocop tem um irreverente Paul Verhoeven atrás das câmaras, que, sem fazer nenhum tipo de concessões ao grande público, consegue manter um tom sério ao mesmo tempo que não despreza a acção pura e dura. Pelos exemplos das sequelas, percebe-se o quanto é difícil não entrar no campo do ridículo, principalmente quando se tem um polícia-robot como protagonista principal.
Quando o vi pela primeira vez, gostei imenso. Hoje, continuo a gostar. Para mim, é um clássico moderno da ficção científica, totalmente original, e que merece estar em qualquer lista dos melhores de sempre. ●●●●○



No seguimento do grande sucesso do primeiro filme, surgiu inevitavelmente uma sequela, Robocop2 (1990) . Esta, nem é assim tão má, como costumam ser as sequelas "tradicionais". Fica apenas uns furos abaixo do original. O enredo não foge muito à lógica do primeiro, com a excepção do confronto entre o Robocop original e um novo robot (o Robocop2), agora comandado por um traficante/criador de drogas sintéticas.
Este Robocop 2 não acrescenta nada de novo, mas também não cai no ridículo como aconteceu no terceiro filme. Perdeu obviamente, o efeito surpresa, o que já é bastante. Mas no fim, acaba por ser um filme medianamente bom. É dirigido por um realizador muito competente e habituado às grandes produções de acção, Irvin Kershner (Star Wars: Episódio V e 007, Never Say Never Again), continua a ser suportado por (alguns) bons actores, tem um argumento light, mas aceitável, e tem um ritmo acelerado e coerente durante todo o filme, que é o que se pretende num filme de acção.
Como se costuma dizer na gíria: "não é de especial, mas vê-se bem..." ●●●○○



É uma coisa que me intriga: como é que responsáveis por um estúdio de cinema vêm a montagem final de um filme destes e dizem: está bom, siga para as salas de cinema. Só vejo uma razão para isto acontecer. É alguém dizer: "vamos vender uns bilhetes, que as pessoas querem é ver o Robocop". E a lógica de querer vender bilhetes à força dá nisto: Robocop3 (1993). Uma anedota de filme. Um fim inglório para uma personagem icónica. Não há nada que se aproveite neste filme. O argumento é ridículo e mais parece que misturaram a história do Robocop com uma história duma moderna ascensão nazi. Chega ao absurdo de se substituir o actor principal por um parecido com o Peter Weller do filme original. É possível ir mais ao fundo? É, pois! Os efeitos especiais regrediram e são estupidamente ultrapassados. Repito: este é o exemplo de filmes feitos propositadamente para cavalgar o êxito dos anteriores, vender mais alguns bilhetes e mais nada. Na nova história, Robocop tem agora como adversário um "suposto" andróide japonês (a OCP foi comprada por uma empresa rival japonesa) que é uma espécie de robot-ninja (!?), que só se sabe que é um robot, porque quando morre emite algumas faíscas. Ridículo. Pior ainda, é que durante a maior parte do filme, o Robocop está partido ao bocados, avariado, desligado, a ser consertado ou está estatelado no chão, indefeso. E depois, no fim, ainda voa graças a um jet-pack... Não há palavras para descrever tanta mediocridade. Um filme que é uma nulidade, mas acima de tudo é uma cuspidela sem vergonha numa das melhores criações originais do cinema. Na ânsia do lucro fácil, os estúdios de Hollywood por vezes comportam-se como pequenas versões cinematográfica da OCP: não olham a meios para fazer uns dólares extra, nem que para isso tenham de matar e atirar para sarjeta as suas próprias criações. Inacreditável. ○○○○○



Como toda a gente já percebeu, em Hollywood, as ideias morreram há bastante tempo. Agora só existem adaptações de bandas desenhadas e/ou novelas gráficas, sequelas, prequelas, remakes e reboots de êxitos antigos. Inevitavelmente, o reboot tinha de chegar a Robocop (2014).
Tenho de admitir que não foi tão decepcionante como previa. Mas também não trouxe nada de novo, o que acaba por ser algo... decepcionante, já que a expectativa de ter José Padilha atrás das câmaras era bastante grande. É o chamado "mixed feeling".
A nova história é algo diferente. A OCP continua a ser a megacorporação ultra-gananciosa do original mas agora é mais global e militarizada. Presume-se que esteja numa fase mais avançada, tendo já em terreno estrangeiro robots a pacificar zonas urbanas em conflito. Já o agente Murphy torna-se em Robocop mais ou menos da mesma forma que o original. A dualidade homem-máquina acaba por ser um pouco mais aprofundada, mas ainda assim de uma forma muito light. Para além do update (mais ou menos bem conseguido) ao aspecto do próprio cyborg, a grande diferença deste filme para o primeiro é a abordagem dos media, menos satírica e muito mais contundente e crítica. Para isso muito ajuda Samuel L. Jackson a interpretar a figura de um grande comunicador de massas, que chega quase a ser assustador e que parece uma voz da propaganda do regime. E muito do filme gira em torno desse tema "quente": devem ou não, os robots ser introduzidos na vida quotidina como agentes da autoridade? Como se costuma dizer: é um tema complicado...
Como filme, tecnicamente é irrepeensível. Vindo dum realizador como José Padilha não seria de esperar outra coisa. Tudo faz sentido e tudo está bem feito. Tem um casting que não necessita de grandes comentários: Gary Oldman, Samuel L. Jackson e Michael Keaton. Só este trio, corrigia qualquer defeito maior que o filme pudesse ter.
Se este reboot perde em relação ao original, é precisamente por causa disso: não é original. É apenas um reboot de uma grande êxito antigo. Apesar do novo Robocop ser um filme relativamente bom, sinceramente, espero que os estúdios fiquem por aqui. O melhor é dedicarem-se a criar personagens novas, originais e icónicas como aconteceu com o primeiro Robocop. ●●●○○

Henry: Portrait of a Serial Killer (1986) é baseado na figura real do assassino em série Henry Lee Lucas (que morreu na prisão em 2001) e do seu companheiro de matanças, Ottis Toole. Contrariamente à  história do verdadeiro duo criminoso, a personagem de Becky é transformada em irmã adulta de Ottis, em vez da sobrinha de 12 anos. Também os crimes retratados no filme são os que Henry confessou como seus (mas que nunca puderam ser comprovados) e não os que foram realmente documentados pela polícia. Graças a esses crimes, e apesar de ter sido condenado à morte, Henry acabou apenas por cumprir prisão perpétua por interferência do então governador do Texas. E o governador era... George W. Bush. Estranho, não? É caso para dizer que a realidade é mais estranha que a ficção...
Revendo o filme muitos anos depois, noto nitidamente que vai perdendo o efeito choque inicial. É normal. Hoje em dia, ninguém sai a correr do cinema se vir pela primeira vez o Psico ou até O Exorcista. Vão sempre aparecendo filmes que suplantam o efeito choque/soco-no-estômago como por exemplo, Irreversível. Quando querem chocar, os filmes conseguem sempre elevar a fasquia. Ou então, são as plateias que entretanto ficaram mais "endurecidas" e precisam de choques cada vez mais violentos...
Na figura principal de Henry, um assassino em série totalmente aleatório, está Michael Rooker, um actor de segunda linha de Hollywood. O que não quer dizer que é mau actor, apenas que não é muito conhecido. Este filme prova que os actores não se medem pela popularidade nem pela quantidade de blockbusters em que participam. Rooker, como excelente actor que é, faz uma excelente representação e não é exagero afirmar que garantiu um espaço ao lado dos grandes psicopatas do cinema como Perkins (Psico) e Hopkins (Silence of the Lambs). Nada mau para o primeiro filme. Li uma história em que se conta que na altura, Rooker trabalhava como contínuo e foi de uniforme que se apresentou nas audições, e assim continuou durante todo o processo de filmagem. Não sei se foi o uniforme ou outra coisa qualquer, mas conseguiu criar na personagem uma dualidade de vadio antipático, de quem sentimos mais pena que repulsa, e com quem se poderia ter um conversa normal sem desconfiar de nada. E, para um papel destes, mais importante que tudo, é a personagem possuir crazy eye. Rooker é irrepreensível nesse aspecto.
A narrativa do filme é monótona e totalmente linear. Poderia ser uma coisa má, mas neste caso até ajuda. Acrescenta tensão durante todo o filme e acaba por adensar ainda mais o ambiente de anormalidade em que os dois loucos vão vagueando sem regras e sem controlo. A filmagem estática, e takes penosamente longos obrigam a uma fixação constante nas imagens e a uma atenção redobrada, levando a um autêntico mergulho no filme e do qual não se consegue escapar com facilidade. Não deixa de ser curioso que esta opção tenha sido um reflexo do baixo orçamento, já que o realizador John McNaughton confirmou que o projecto inicial envolvia toda uma filmagem mais solta, do tipo documental, de câmara ao ombro, que não se concretizou por motivos financeiros e pela perda do director de fotografia. Apesar de tudo, este tipo de filmagem foi explorado ao máximo em duas cenas: uma, crescentemente tensa mas totalmente improvisada pelos três actores principais e outra, numa das cenas mais violentas do filme, em que é filmada uma família a ser brutalmente atacada. No fim de toda a selvajaria envolvendo um casal anónimo e indefeso, apercebe-se que afinal estamos a ver uma repetição gravada na TV; precisamente o mesmo que os dois assassinos estão a fazer. Esta cena obriga a uma reflexão obrigatória. Afinal, porque tanto nos fascina os assassinos em série e os seus actos bárbaros? E, seremos nós, "os normais", assim tão diferentes, para estar a assistir a estas cenas? Quer se queira, quer não, um filme com serial killers é sempre um sucesso de bilheteira e muitos destes filmes são clássicos intemporais. E todos os grandes actores desejam ter no currículo um papel assim. Dá que pensar...
Henry é um daqueles filmes que desmonta a velha teoria que um filme para ser rentável e economicamente viável, precisa de ter um grande orçamento. Filmado em 1986 por 110 mil dólares acabou por render mais de meio milhão quando foi posto a circular no circuito alternativo em 1989. E desde então tem facturado mais milhões. Nada mau para um filme em que os próprios produtores estavam relutantes em libertar para o público (é essa a razão do hiato de 3 anos entre a produção e a exibição), povoado de amigos do realizador e da equipa técnica (para colmatar a falta de actores profissionais), assim como o uso nas filmagens dos seus carros pessoais e até as próprias roupas. Até o produtor executivo contribui na representação, algo impensável hoje em dia. Neste caso, o aspecto quase amador é uma ajuda importante para a textura do filme, conferindo um aspecto totalmente cru e sujo, o que cai optimamente bem no clássico tema dos assassinos em série.
Não haja dúvidas. Este é um filme para os amantes incondicionais de festivais de terror e/ou para quem gosta de ser "agredido" visualmente no conforto do seu sofá. Muitos dos envolvidos no próprio filme, como Tom Towles (Otis) afirmaram que o filme é tão perturbador que só o viram uma vez. Não se fica com uma boa sensação depois de ver Henry, porque este é um daqueles filmes duros de ver. É como ser perseguido por uma figura misteriosa por uma viela imunda e escura numa noite de chuva... E mesmo assim é um filme muito bom. ●●●●○

Um arquitecto de renome fala calmamente com a sua mulher e diz que a ama. Depois dá-lhe um tiro na cabeça. A polícia prende-o sem dificuldade e ele confessa o crime. O advogado responsável pelo caso, habituado a ganhar quase todos os casos, assume que será uma condenação fácil. Mas não será bem assim, porque o polícia responsável pela detenção tinha um caso amoroso com a vítima.
Anthony Hopkins e Ryan Gosling têm prestações excepcionais que me fizeram agarrar ao sofá num daqueles thrillers à moda antiga na barra do tribunal. Especialmente Hopkins, que, com aquele brilho estranho nos olhos (o chamado crazy eye) parece ter "vestido" novamente a pele do "sábio-tresloucado" Hannibal Lecter.
Fracture (2007) é uma pequena pérola do cinema que tem drama, suspense, acção e uma excelente história com constantes reviravoltas onde uma pessoa nunca sabe o que vai acontecer a seguir. É um daqueles filmes que me prendeu ao ecrã e que está tão bem dirigido e é tão enervante - no bom sentido - que dá vontade de entrar pela TV dentro e intervir na acção. A realização imaculada é da autoria de Gregory Hoblit (que já tinha no currículo o excepcional Primal Fear) que consegue sem tiros, perseguições e explosões manter um filme de quase duas horas em constante acção e com uma tensão inacreditável. Tenho a certeza que se o Hitchcock estivesse a fazer crítica de cinema, lhe daria os "dois polegares para cima". Nada a apontar. Muito bom. ●●●●○

Se alguém se sentir tão fascinado com explosões nucleares como eu, há um documentário obrigatório para ver: Trinity and Beyond (1995). É simplesmente arrebatador. Não só pelas imagens das detonações nucleares, mas também pelo inteligente guião narrado por William Shatner. É um daqueles filmes que nos põe quietinhos, mudos, impotentes, de boca aberta, a olhar para uma televisão. Parece que estamos a ver ficção e efeitos especiais, mas é a mais pura das realidades. Ver este documentário deixa uma pessoa a pensar: como é que chegamos a este ponto, em que conseguimos destruir-nos totalmente e ao planeta? Como é possível isto acontecer? Como é possível libertar tanta enegria de elementos tão pequenos como átomos? E agora que estas armas são uma realidade como é que vamos viver com isto? Será esta a derradeira Caixa de Pandora?
Peter Kuran, um homem dos bastidores (participou na área dos efeitos especiais em muitos, muitos, muitos blockbusters de referência) vira-se para a mesa de montagem e faz um trabalho excepcional. Conseguir criar uma narrativa logica e coerente, recorrendo quase exclusivamente a imagens de arquivo não é fácil. Eu só consigo imaginar a quantidade de pesquisa necessária para fazer um documentário destes.
Trinity mostra-nos a história e todo o desenvolvimento das bombas atómicas, desde os primeiros testes americanos até às detonações dos novos "países nucleares". Kuran optou - e bem -, por manter um tom político neutro, o que só eleva ainda mais o filme, deixando esse tipo de considerações do outro lado do ecrã. Kuran também conseguiu reunir as melhores explosões que já vi (e algumas novas), na melhor qualidade possível, o que torna o documentário visualmente assombroso. O acompanhamento sonoro e musical é excelente e ainda aprofunda mais o efeito devastador que estas imagens por si só possuem. Se me perguntassem quais os pontos negativos deste filme, eu só poderia responder: nenhum. Não há nada de mal a apontar. Está excepcionalmente bem feito. Um filme obrigatório. ●●●●○

Sou um fã incondicional do tema da ficção científica. Juntamente com o documentário, acho que é a temática mais completa para se apresentar em filme. Por isso mesmo, nunca perco a oportunidade de ver um filme destas categorias, mesmo sabendo que na maior parte dos casos o resultado final é uma desilusão. Neste caso são dois blockbusters de ficção protagonizados por Tom Cruise. A temática é a mesma, o actor é o mesmo, mas as histórias são tratadas de forma diferente, o que torna um dos filmes muito melhor que o outro.

Primeiro, o menos bom. Em Oblivion (2013), a história centra-se em Jack Harper (Tom Cruise) que faz reparações de drones num planeta Terra devastado após uma guerra com extraterrestes. Ele e a mulher são dos poucos que ainda vivem na Terra e esperam uma oportunidade para se juntar aos restantes humanos que vivem agora numa lua de Saturno. Nenhum deles tem memórias completas da sua vida passada e da devastação da Terra, mas Jack tem sonhos recorrentes. Tudo está tranquilo até ele descobrir uma nave caída com vários tripulantes mortos e... a mulher que aparece nos seus sonhos.
O tema da ficção científica com extraterrestres já está" muito batido". É o resultado de anos e anos de blockbusters, por isso dou sempre um desconto a histórias que parecem decalcadas de outros filmes. E até compreendo que seja difícil fazer algo totalmente novo, mas já não compreendo que se insista constantemente nos velhos estratagemas do "esquecimento com sonhos vagos que depois acontecem mesmo e tudo o que parecia verdade afinal é mentira e ainda por cima tem um grande twist no final". O filme que até está muito bem dirigido, tem boas actuações (Morgan Freeman está sempre bem) e que tem um design espectacular, preenche todos os requisitos para ser totalmente esquecido só porque insiste em colar-se aos clichés do blockbuster. O pior de tudo é o twist final, que por natureza é algo que supostamente não se está à espera que aconteça, mas que a meio do filme já é totalmente previsível. Oblivion podia ser um filme muito melhor se não fizesse tantas concessões. O desenrolar da história - que podia ser boa - acaba por diminuir o filme. É pena, porque o filme tem muitos e bons pormenores. ●●○○○



Outro filme de ficção com extraterrestes é Edge of Tomorrow (2014). A Terra foi invadida por extraterrestres e está em guerra. A história centra-se no major William Cage (Tom Cruise) que aparentemente fica preso no tempo, condenado a voltar ao dia anterior a uma batalha em que morre sempre. No entanto, cada vez que morre, volta ao ponto inicial e acaba por ir melhorando as suas capacidades de guerra.
Este filme é a prova que se Hollywood quer fazer algo de novo, tem de procurar inspiração fora de Hollywood. Neste caso, a inspiração vem da prolífica (e aparentemente infindável) imaginação dos criadores de manga. É a história e o seu desenrolar que tornam este filme melhor que Oblivion. Não é espectacular, mas gostei muito - o que é raro hoje em dia - simplesmente porque o filme é perfeitamente equilibrado. E acima de tudo porque é uma lufada de ar fresco. A história que por natureza é repetitiva e confusa, não cansa e é bastante fluída e rápida; o tom está preso entre momentos sérios e engraçados (o que é bastante difícil de fazer); os efeitos especiais não se apoderam do filme (cumprem a sua função, que é ajudar o argumento); os actores (Emily Blunt e Bill Paxton) estão muito bem e não parecem "acessórios" da grande estrela de cartaz; é um blockbuster mas tem alguma densidade. Edge of Tomorrow mostra que é possível fazer grandes produções sem que pareçam todas saídas do mesmo molde. Muitos produtores e estúdios de Hollywood, antes de gastarem os próximos de milhões de dólares num filme de acção vazio, deviam seguir a tagline deste filme: ver o filme; recomeçar; ver o filme; várias vezes. ●●●○○

Em 1959, uns miúdos de uma escola criam uma cápsula do tempo. Desse grupo de miúdos destaca-se uma miúda estranha que ouve vozes vindas do céu. A contribuição dessa miúda é uma enigmática série de números aparentemente aleatórios rabiscados num papel. Quando abrem a cápsula do tempo, 50 anos mais tarde, um outro miúdo fica com a estranha listagem e mostra-a ao pai (Nicolas Cage) que descodifica o terrorífico significado: é uma lista de datas de acontecimentos trágicos catástrofes naturais e o respectivo número de mortos. A premissa é: o que acontecerá quando os números acabarem?
Kowing (2009) de Alex Proyas é o exemplo gritante do filme-catástrofe de ficção científica/acção que tem ideias interessantes e meia dúzia de boas cenas, mas depois fica refém da própria premissa e vai perdendo força até desaparecer por completo. Quando vi o trailer e percebi que era um filme do Alex Proyas (do genial "The Crow" e também do "Dark City") fiquei curioso: será que ele consegue finalizar bem uma premissa tão grande? Depois percebi que não conseguiu.
Há um "erro" muito comum nos filmes recentes: parece que começam com uma história muito interessante que ninguém sabe muito bem como vai acabar. Nem mesmo os argumentistas. Depois, quando o filme se aproxima das duas horas de duração, parece que tem de acabar de qualquer maneira. Em termos de trailer é uma maravilha. Aguça a curiosidade e leva pessoas ao cinema. Em termos de filme é péssimo. É como ver um bolo espectacular numa montra e não resistir a provar para depois descobrir que o bolo afinal sabe a... bolo normal. É uma decepção. E o bolo até nem é mau de todo, mas uma pessoa está à espera que saiba tão bem quanto aparenta ser. É o principal problema deste filme: promete demasiado e depois não consegue cumprir. Isso, e não explicar uma série de pontas soltas no argumento, como por exemplo, os extra-terrestres.
A realização é competente, os actores são competentes e o resto do filme também é competente, mas sem deslumbrar. Como se costuma dizer na gíria crítica: "é um filme competente, mas não memorável". O que traduzido quer dizer: "é um daqueles filmes bons para se estar entretido ao domingo de tarde com uma mantinha nas pernas". ●●○○○

Tinha curiosidade em ver o Striptease (1996) desde que estreou. Finalmente, apanhei o filme na TV. Devia ter estado quieto, porque, provavelmente, é um dos piores filmes de sempre! Não há outra forma de o classificar. O enredo é patético, a direcção é patética, as personagens são patéticas. Tudo é patético neste filme. Ao princípio pensei que era uma espécie de crítica ou sátira... mas não. É simplesmente patético. Mesmo no pior dos filmes, há sempre aspectos positivos. As únicas coisas boas: a presença de Ving Rhames (que é sempre cool), os strips e as mamas (perfeitamente plásticas) da Demi Moore e a oportunidade única de ver Burt Reynolds de texanas e coberto em vaselina (parece que se estava a preparar para o papel em Boogie Nights). Resumindo, acho que nunca vi um filme tão mau. ○○○○○

Num futuro próximo, o Reino Unido entra numa espécie de Guerra Fria com a China. Para tentar resolver o conflito, é desenvolvido um projecto de inteligência artifical radical: criar uma máquina que simule perfeitamente um ser humano. Nasce a Máquina. No cerne da investigação está um génio de AI que pretende usar o poder da máquina para curar a doença da filha. Pelo meio, percebe-se que a máquina saiu tão perfeita que pensa que é humana e isso vai fazer soar as campainhas de alarme do governo que obviamente vai tentar destruí-la. Resta a grande questão: afinal, o que é ser humano?
Toda esta história soa familiar? Pois soa. É mais um entre dezenas de filmes em que máquinas "pensam" que são humanos e os humanos com medo, querem destruí-las. Para mim, a grande questão é: quantos mais filmes com a mesma história é possível fazer?
Este filme só tem duas coisas positivas: um bom realizador, Caradog W. James, que consegue dar um bom ritmo a um filme de minúsculo orçamento com uma realização muito linear; e um bom actor, Toby Stephens, o único do elenco que "suporta" verdadeiramente o filme. É muito pouco. Pouco mais há a dizer sobre The Machine: a história já toda a gente a conhece e acaba tudo mais ou menos bem... como as restantes histórias do género. O trailer parece bom, mas é um engano. O filme é muito fraco. ●○○○○

Há filmes que são tão maus que de alguma forma se tornam bons. É o caso de Armageddon (1998). Um asteróide vai explodir com a Terra dentro de pouco tempo e nada vai sobreviver. Esperamos pelo destino final? Não. A NASA tem um plano. Decide recrutar uma série de loucos perfuradores de petróleo para irem até ao asteróide, furá-lo, meter-lhe uma bomba nuclear e rebentar com o dito cujo. Sendo um filme do Michael Bay, toda a gente sabe o que o espera: cores estremamente carregadas a puxar para o teledisco, muitas cenas em câmara lenta e rotações a 360º, explosões a cada 30 segundos, muitas bandeiras americanas ao vento, heroísmo a rodos e um final feliz em que alguém se sacrifica pelo grupo. Nesse aspecto, o filme não desilude. Está lá tudo.
Estranhamente, é para aí a quinta vez que vejo o filme, mesmo achando que não presta para nada. É a vantagem deste tipo de filmes: esquecem-se rapidamente. Quando o comecei a rever até pensei que nunca o tinha visto pois era tudo novidade. E como há "n" de outros filmes-catástrofe com um iminente fim do mundo, uma pessoa fica sempre na dúvida.
Nem tudo é negativo neste filme. Quer se queira, quer não, Michael Bay conseguiu cunhar um estilo muito próprio de cinema. Um pouco "azeiteiro", mas um estilo próprio. E isso é positivo. Depois é uma autêntica parada de estrelas: Bruce Willis, Billy Bob Thornton, Ben Affleck e Steve Buscemi, só para mencionar alguns dos bons actores. Como é uma enorme produção (suportada pelo Jerry Bruckheimer), os efeitos especiais são do melhor que há e o ritmo frenético do filme deixa-me sempre colado ao sofá.
Tudo é exagerado neste filme: as explosões, as cenas de acção, os twists no argumento, os sons do asteróide, as contagens decrescentes, as personagens sempre aos gritos, os estereótipos vincados, a quantidade de piadas metidas à força e até a duração do filme. É tudo um enorme exagero. O que de mais positivo tem este filme é isto: mesmo sendo tão mau e vazio, se estiver a dar num canal qualquer, eu não resisto e volto a vê-lo. Não percebo esta minha reacção. Alguma coisa deve ter de bom. Só por isso se torna num filme com sinal positivo. ●●●○○

Diz-se que o Futuro não existe. O Futuro é aquilo que se vai construindo, vivendo o presente. Assim sendo, e não entrando nos complexos e estranhos campos da futurologia e das viagens no tempo, é possível ir recolhendo algumas indicações actuais, sempre alicerçadas em acontecimentos passados, para tentar prever o que se irá passar a seguir ou qual o caminho que se está a desenrolar. Se calhar até é este tipo de acção que faz com que o futuro se vá concretizando a partir do presente. Quem sabe? Ao longo dos tempos, muitos o têm feito em muitos campos. No campo das artes, esta acção ganha especial relevância no cinema. A grande vantagem do cinema em relação às restantes artes, é que permite ter uma visão quase-real do futuro. Literalmente, é possível ver e ouvir um futuro, uma hipotética realidade, ou seja, uma utopia. Ainda ninguém respondeu conclusivamente - nem responderá, digo eu - à  derradeira pergunta: é a vida que imita a arte ou a arte que imita a vida?, mas seja qual for a resposta, ela será sempre preocupante. E por uma razão simples. Nas visões hipotéticas do cinema, o Futuro é sempre negro.
Mesmo as (raras) utopias mais idílicas têm uma tendência natural para a distopia. Não é por nada que a utopia é considerada como um não-lugar, ou um lugar onde apenas se almeja chegar sem nunca lá chegar efectivamente. O Cinema apresenta o Futuro como invariavelmente decadente, perverso, destruído, desumano e sempre mais perto da imagem típica do Inferno do que do Paraíso. Independentemente de ser um Futuro tecnologicamente avançado ou em retrocesso, o Futuro é sempre negativo, com os homens obsessivamente a tentarem subjugar tudo ao seu domínio, mantendo tudo sobre um apertado controlo, incluindo como é óbvio, outros homens. No Cinema recente, as referências originais são cada vez menores. A necessidade de receita de bilheteira - não convém esquecer que o cinema é uma indústria, dinheiro, acções, investimentos, empréstimos, etc... - tornou o estilo apenas numa enorme montra de efeitos digitais e segue o rumo de quanto mais fogo-de-artifício melhor, porque se o pessoal paga para ver, é porque quer ver espectáculo desenfreado, perseguições espectaculares e explosões enormes. Se calhar por isso, a produção recente passa mais pelo remake do que outra coisa, aproveitando as boas histórias antigas e apresentando maiores e melhores efeitos especiais. Também não será de descartar o facto de até há pouco tempo se viver num "tempo de prosperidade" e por isso mesmo, o público estar mais inclinado para as comédias românticas do que em versões utópicas (ou distópicas?) do mundo.
Talvez por falta de referências recentes e pela aproximação muito virada para o espalhafato visual, o tema da Ficção Científica/Futuro/Distopia é necessariamente um género menor, e com tendência para se ir degradando cada vez mais. No entanto, existem inúmeros exemplos "antigos", só que estão escondidos pelo tempo, esmagados pela avalanche produtiva da indústria do cinema actual e, de certa forma, diminuídos por efeitos visuais/especiais já muito ultrapassados. É a chamada ironia do destino!
De certa forma, a imaginação do "cinema das utopias" é uma excelente ferramenta para visualizar o que poderá acontecer no futuro, ainda que tudo não seja mais que uma mera hipótese saída dum guião escrito para o ecrã. Quanto mais não fosse, muitas destas utopias são excelentes filmes e alguns verdadeiras obras de arte em movimento.
Mas independentemente da qualidade do filme ou da utopia apresentada ser ou não verosímel ou compatível com a realidade do momento, a grande questão é: será possível que alguma das utopias/distopias do cinema possam vir a concretizar-se?
Respondendo à questão anterior: Aparentemente sim. Brazil (1985) é talvez o melhor filme para ilustrar como a ficção pode imaginar correctamente uma realidade futura. Pensando bem, vivemos agora mesmo, numa realidade que não existia há 20 anos, mas que no entanto foi previsto como um possível culminar do que era a sociedade em 1985... Senão vejamos se as coisas não batem mais ou menos certo: Tudo se passa numa sociedade livre mas estatalmente opressiva, omnipresente e hiper-burocrática, tão sofisticadamente evoluída ao ponto de a própria tecnologia ser incompreensível, quase mágica e que parece sempre obsoleta.
Aqui vive o (anti) herói que tem ironicamente um emprego no Estado por apontamento directo da influente mãe que mal o conhece e que é viciada - tal como todas as "amigas" - em operações plásticas para manter uma impossível juventude, sempre motivada por um cirurgião plástico sem escrúpulos.
Sam Lowry (Jonathan Pryce) é um funcionário público que tenta corrigir um erro na pesada e (quase) infalível máquina tecno-burocrática do Estado, causado ironicamente pela morte de uma simples mosca. Este erro insignificante faz com que um sapateiro, - Mr. Buttler - seja injustamente preso em vez de Mr. Tuttle, um trabalhador freelance que é Engenheiro de Aquecimento e considerado um terrorista perigoso... porque foge à avalanche de impostos do Estado. No seu monótono emprego - em que todos os colegas fingem que trabalham apenas quando o superior aparece - é a grande ajuda do chefe da secção que sendo mais velho, não se entende com o trabalho moderno e com as restantes modernices tecnológicas. Na sua demanda por corrigir o erro, envolve-se com uma terrorista anti-Estado, que é também a mulher dos seus sonhos, onde voa para lá das nuvens e luta com um guerreiro gigante (presume-se, o próprio Estado). Toda esta aventura e romance impossíveis resultam na sua transformação em terrorista por cumplicidade amorosa. O terrorismo é uma peça importante neste filme e está presente em muitas cenas. Enquanto Sam almoça com a mãe num restaurante exclusivo, irrompe uma cena de explosões terroristas, mas o acontecimento é já tão banal que nem perturba a refeição dos clientes. Na cena inicial do filme, uma loja de venda de TV's explode no exacto momento em que passa um anúncio que apela à troca das velhas condutas de aquecimento por umas novas que são rigorosamente iguais às anteriores, seguida de uma declaração de um Ministro sobre o actual combate ao terrorismo. O terrorista que o Estado quer apanhar (Mr. Tuttle) é na verdade mais uma espécie de trabalhador-terrorista que tem de trabalhar às escondidas, fazendo biscates, totalmente dissimulado, para não ser apanhado nas malhas dos impossíveis impostos que não lhe permitem ficar com nenhum do dinheiro que ganha. Mr. Tuttle (Robert De Niro) tem a particularidade de conseguir desaparecer num tornado de papéis...
Totalmente embrenhado no "lado de lá da barricada", perseguido pelo próprio Estado empregador e com a vida em perigo, a única porta de saída possível, é fugir para uma terra verdejante, natural, idílica e utópica de que toda a gente fala, chamada de Brazil; o exacto oposto da complexidade em que vive e das megas construções de cimento que o rodeia no dia-a-dia. Mas essa possível realidade de fuga pode ser bem mais cinzenta do que imagina... Fica a frase que resume o filme: suspicion breeds confidence... Está tudo dito.
Como filme, há que admitir que Brazil é um pouco desequilibrado. Por exemplo, os estranhos sonhos de Sam destacam-se demasiado; parecem que fazem parte de outro filme. Também o tom (demasiado) satírico prejudica a excelente visão objectiva que o filme e o argumento mereceriam. Se calhar, o filme não tem um status maior, precisamente devido a esta clivagem estética e narrativa. Mas a visão crítica à sociedade está bem actual, o que torna o filme extremamente pertinente. Tecnologia que já ultrapassou a compreensão dos utilizadores, a necessidade de fuga do betão ao encontro da natureza, controlo pessoal constante e excessivo por parte do Estado, manutenção social do status quo, burocracia maciça, ausência e/ou superficialidade de relações pessoais, a procura sem limites pela beleza e juventude, a estética levada ao ridículo e até, o que acho de maior relevo, o terrorismo dentro do próprio Estado, quase como uma inevitabilidade da opressão e a insinuação de que a existência do terrorismo é até benéfica para o próprio Estado manter os cidadãos controlados e do seu lado. O realizador, Terry Gilliam - o americano mais inglês de todos - não renega as suas raízes Monty Phyton (quem não se lembra das animações esquisitas com os pés?) e leva as coisas um pouco para a brincadeira e para o nonsense. Talvez por causa disso, o filme tenha sido um flop comercial e talvez por causa disso, ainda hoje permaneça algo esquecido e desvalorizado. Mas também pode ter sido por estar demasiado avançado para o seu tempo. No entanto, e isso é que é importante, as previsões lançadas no já longínquo ano de 1985 têm vindo a concretizar-se nos dias de hoje e algumas delas são até situações vulgares do dia-a-dia, sem que se perceba que há 20 anos atrás eram apenas a imaginação desvairada de um realizador. Este é um filme único e obrigatório para quem gosta de cinema e merece a classificação máxima. Falta-lhe "um bocadinho assim" para ser uma obra-prima. O melhor é mesmo esperar mais uns anos, rever, e tenho quase a certeza que chega lá. ●●●●●

Há milhares de filmes por aí que nunca vi. Alguns são muito bons e passam despercebidos à maior parte das pessoas. Isso acontece porque são de pequenos estúdios sem grande capacidade de distribuição ou porque não têm actores de renome ou porque pura e simplesmente acabam esamagados pela avalanche de novos lançamentos. Para os encontrar, uso a Técnica Intensiva, que consiste em ver muitos filmes, mesmo aqueles que me são totalmente desconhecidos. Por vezes, pelo meio, surgem verdadeiras pérolas, mas na maior parte das vezes, os filmes não valem nada, tal como esperava. São só película editada, com um nome conhecido de Hollywood para dar alguma credibilidade e/ou visibilidade e praticamente mais nada que se aproveite. É o caso desta meia dúzia que se segue.

O primeiro que vi foi Alex Cross. Um policial com Mathew Fox a fazer de mauzão e a tentar descolar-se do papel de bonzinho da série Lost. Tem umas explosões, umas perseguições rápidas e... pouco mais. Supostamente, este filme seria uma extensão dos filmes da "série Alex Cross", anteriormente interpretado por Morgan Freeman, mas sinceramente não consigo ver a ligação. Vê-se e esquece-se. Fraquinho. ●●○○○



A seguir, arrisquei tudo e decidi ver Doomsday. Nunca tinha ouvido falar deste filme, por isso suscitou-me curiosidade. Ainda por cima, a temática era boa e actual: pandemia e isolamento. Quando o comecei a ver fiquei com a estranha sensação que estava a ver bocados de outros filmes. Há cenas que parecem copiadas do Aliens de James Cameron. Os maus da fita parecem saídos do Mad Max. Todo o filme parece uma mistura moderna do Braveheart (tudo se passa na Escócia isolada em quarentena forçada pelo governo inglês), do Mad Max (o estilo dos sobreviventes anárquicos) e do 28 Dias Depois (tudo acontece devido a uma misteriosa doença contagiosa). No mínimo, as semelhanças são estranhas. Do meio do cast semi-desconhecido, saltam à vista o Bob Hoskins e o Malcolm McDowell, que nitidamente estão ali só para dar nomes sonantes ao trailer... aparecem 5 minutos cada um. Não é horrível mas também não é filme para se rever. O trailer é muito melhor que o filme. ●●○○○



Por vezes, atiro-me de cabeça para filmes, só porque conheço o realizador ou um actor. Foi o caso deste Soldier. Gosto muito do Event Horizon (uma pequena pérola que descobri acidentalmente) e desde então fico sempre curioso com os filmes do Paul W. Anderson. E como também gosto do Kurt Russell arrisquei novamente as fichas todas. E perdi. É daqueles filmes que só consegue ser bom por ser tão mau. No futuro, soldados super-preparados para a batalha desde a nascença são mais tarde substituídos por outros mais recentes e capazes, blá, blá, blá, e no fim o soldado obsoleto derrota o adversário mauzão... Mais um para esquecer... ●○○○○



Depois veio Gamer com o Gerard Butler. Nunca vi um filme assim; parece um videoclip gigante. Só tem duas velocidades, frenético e super-slow motion. É garantido uma dor de cabeça gigante no final. A premissa é interessante, misturando a realidade física com a realidade virtual dos videojogos. O resto do filme é que não é nada de novo. Aliás, toda a força motriz do argumento - lutar pela sobrevivência para uma audiência global - já recua aos tempos do The Running Man. Fugir dum cativeiro opressivo para recuperar o filho que está preso pelo mau da fita então deve ser das coisas mais batidas do cinema. A única coisa que se safa neste filme é o Michael C. Hall que tem uma excelente cena musical ao som de "I've Got You Under My Skin". ●●○○○



Legion é mais um daqueles filmes em parece que fizeram o trailer e depois o insuflaram para ter um filme completo de longa duração. Já conheço a técnica e só acedi a ver porque tinha lá o nome do Dennis Quaid e do Charles S. Dutton e porque a temática eram os anjos. Mais outro engano cinéfilo. Não vale o tempo que se perde a vê-lo. Arrisquei e perdi 2 horas da minha vida. É melhor ficar só pelo trailer... ●○○○○



Por fim, Hitman 47. Por norma, os filmes adaptados de grandes sucessos de video jogos são maus. Não sei porque é que isso acontece, mas é verdade. Este não foge à regra. Não quer dizer que o filme seja propriamente mau, mas não deixa de ser mais um filme de acção que não acrescenta absolutamente nada. É isso mesmo; apenas mais um filme de acção. Os actores são bonzitos (tem uma ex-Bond Girl) e o filme até não tem grandes falhas e é equilibrado. Simplesmente é mais um filme que aproveita o argumento vindo dos jogos, acrescenta explosões, perseguições e mais nada. Ainda assim, vê-se bem e consegue ser melhor que a molhada de filmes que me obriguei a ver... ●●○○○

Dos que se podem considerar como filmes distópicos, Mad Max (1979) de George Miller é talvez um dos mais fraquinhos que vi. Por muito que queira puxá-lo para cima, Mad Max não é um grande filme. E então revê-lo tantos anos depois, ainda se torna mais... fraquinho. Mas mesmo com o seu argumento banal, tornou-se uma referência para uma imensidão de filmes que vieram a seguir e foi um sucesso mundial estrondoso. E ainda deu a conhecer um desconhecido australiano - Mel Gibson - que apareceu aqui para dar vida a Max Rockatansky e para se tornar uma estrela mundial. Pessoalmente, este filme tem um sabor especial, pois foi o primeiro filme que aluguei para pôr a rolar nessa maquineta revolucionária dos anos 80 chamada de VHS, informação nada relevante acerca do filme, mas que gostaria de partilhar.
Foi a primeira vez na minha vida que tive controlo sobre os filmes que via. Como tinha pouco ou nenhum dinheiro, só ia ao cinema acompanhado por um familiar, e como é óbvio, ele é que escolhia o filme. Na televisão, a situação era a mesma: quem escolhia o filme era o senhor dono da televisão e eu tinha de me sujeitar. Com a introdução do VHS, tudo mudou: eu é que escolhia o filme que queria ver. E no início dessa mudança, esteve este Mad Max. (É por isso que custa tanto não lhe conseguir dar 6 de classificação...). Quanto ao filme propriamente dito, tem falhas e é demasiado simples, mas ainda se consegue espremer algum "sumo". Para isso é preciso retirar as cenas de acção, que, diga-se de passagem são bastante boas para um filme feito praticamente "em família", com pouquíssimos recursos financeiros e sem efeitos especiais.
Uma pequena curiosidade: como já vi este filme várias vezes, encontrei duas versões. Sendo o filme australiano e interpretado por actores australianos, há uma versão americana que é dobrada para que o "inglês" seja mais perceptível do outro lado do Oceano. 
A história do filme confunde-se com o do personagem principal, Max Rockatansky, que numa espiral de vingança e loucura causados pela morte da mulher e do filho às mãos de um grupo de anarquistas motoqueiros se vai transformando em Mad Max: polícia, advogado, juiz e carrasco, tudo num só fardamento de cabedal. O normal dos filmes de mascar e deitar fora. Numa sociedade sem lei nem ordem, em que a sobrevivência e a violência são os principais motores humanos, a diferença entre os que têm um distintivo e os outros, esbate-se seriamente até se dissipar por completo.
Num aspecto muito pouco visível, mostra uma sociedade australiana distópica, que num futuro próximo, mergulha na violência devido ao fim repentino do petróleo e ao aparecimento de violentos gangues de motoqueiros. Está implícito que a sociedade, tão dependente do recurso-petróleo, implode e desmorona-se perante a sua escassez. A sociedade mantém ainda alguns traços de ordem, a polícia existe, mas é tão brutal e violenta quanto os agentes do caos. A Justiça está ainda presente, mas é pateticamente disfuncional e inoperante. Em detrimento da acção-espectáculo, o resto está omisso, o que é uma pena. Poderia e deveria ter sido mais explorado o tema do fim do petróleo. Mas pensando bem, em 1979, quem é que estava preocupado com estas questões? Se o filme ainda tem alguma credibilidade é precisamente porque o tema de fundo ainda se mantém actual.
Mas este é um filme de acção pensado para levar as pessoas aos cinemas comer pipocas, não é um docu-drama que apela à reflexão interior do cinéfilo sobre os destinos do Mundo e do Homem. No entanto, extrapolando para a realidade actual, não é difícil de imaginar o efeito do desaparecimento repentino do petróleo nas nossas sociedades. Hoje, o fantasma do anunciado fim do petróleo é uma pedra no sapato das nações. Ainda não há muito tempo, uns cêntimos a mais no preço dos combustíveis espalhou o caos, paralisações e protestos um pouco por todo o lado. Não é por nada que o petróleo é um dos principais indicadores económicos e ironicamente, um dos principais factores de desequilíbrio, disputas e guerras no Mundo. Quer se queira, quer não, o "Ouro Negro" continua a impor o andamento da Humanidade. Sabendo que é um recurso finito, falta saber até quando existirá como matéria comercialmente viável e o que acontecerá depois de o deixar de ser.
Mas isto é o plano da realidade que nada tem a ver com o plano do celulóide, onde a luta de Mad Max passa por uma vingança sobre rodas e onde as considerações sobre o futuro da humanidade não fazem sentido. Fraquinho como é, o filme acaba como deveria acabar e como toda gente que gosta de pipocas no cinema goste que acabe: os maus perdem, os bons ganham. Mas o brilho da loucura nos olhos de Mad Max já não se apagará mais.
O filme foi um mega sucesso de bilheteira e esteve até há pouco tempo no Livro do Guiness como o filme mais lucrativo da história do cinema. Teve direito a duas sequelas que apesar de serem financeiramente mais robustas são ainda mais fracas, o que prova que grandes produções nem sempre garantem bons filmes. Conhecendo a indústria do cinema e face à cada vez maior dificuldade em produzir novos argumentos, de certeza que estará para breve mais uma sequela...
Por ter sido inovador no tema, pela descoberta do Mel Gibson, por terem usado inteligentemente e ao máximo o pouco dinheiro da produção e pelas fantásticas perseguições de carros, dou-lhe ●●●●○.

A Escócia decidiu há umas semanas atrás referendar a sua presença no Reino Unido. Aproveitando a "onda" de notícias sobre o referendo, o Hollywood decidiu (e muito bem) desenterrar um (já) clássico do cinema: Braveheart, de Mel Gibson, um súbdito de Sua Majestade, mas pelo lado australiano.
É raro encontrar um filme como Braveheart. É um filme perfeito, daqueles que irão figurar em qualquer lista dos melhores filmes. Quem o revê - como foi o caso - perde logo à partida a parte melhor do filme. Tenho a certeza que grande parte das pessoas não são especialistas em História Escocesa, logo, o final é muito mais impactante quando se o vê pela primeira vez. Quem já viu o filme, percebe perfeitamente o que digo.
Ainda assim, mesmo vendo o filme pela terceira vez, não consigo deixar de ficar surpreendido, porque este é um daqueles filmes que parece não ser afectado pelo passar do tempo. Todos os aspectos são excelentes. Desde a realização aos actores, passando pelos aspectos técnicos, nada tem falhas. As cenas de batalhas são óptimas, viscerais e explicitamente realistas e por isso mesmo, marcaram pela diferença relativamente ao que se fazia até ali. Pode parecer estranho, mas cortar pernas e braços não era mainstream em 1995. Os actores são muito bons, com especial referência para o casting. Quando uma personagem entra em cena e uma pessoa "desgosta" logo dela sem que a personagem precise de abrir a boca, isso é um bom casting.
Destaque para o Mel Gibson - sempre o apreciei - que como realizador e actor cumpre sem falhas as duas tarefas. Aliás, o Mel Gibson "é" o William Wallace. Disso não tenho dúvida. Como realizador não há muito para dizer sobre Mel Gibson: conseguiu criar algumas das imagens mais icónicas do cinema no seu filme de estreia. O que mais há para dizer?
Braveheart é um daqueles filmalhaços de quase 3 horas. Podia ser maçudo e moroso de ver, mas não é o caso. Está tão bem equilibrado que se vê "num instante". Rever este filme provoca-me sensações antagónicas. Por um lado, lembra-me tristemente que já passaram quase 20 anos desde a sua estreia, e eu estava algures por aí numa sala de cinema a assistir. Quase que ainda nem existia internet nessa altura. Incrível! Por outro lado, fico muito contente por existirem filmes excelentes como é o caso deste. Braveheart é um dos grandes filmes do cinema para ver e/ou rever. Obrigatório, por isso leva a classificação máxima. ●●●●●+

Adenda:
...e portanto lá vai para 4.ª vez (ou mais) que vejo o Braveheart. É um daqueles filmes que simplesmente não consigo resistir. Se está a dar por aí em algum canal, simplesmente não consigo mudar... Não é que tenha muito mais a acrescentar ao que já disse, mas aproveito para reafirmar que é um daqueles grandes filmes que se tornou num clássico instantâneo e que por direito próprio se mantém totalmente actual e obrigatório.
Esta nova entrada é mais uma oportunidade para tratar doutros temas do que propriamente do filme. Como por exemplo, o facto de avisar que este blog NÃO É uma enciclopédia de cinema, nem todos os dados são totalmente fidedignos (mencionei aqui que erradamente o Mel Gibson é australiano, quando descobri há pouco tempo que tinha nascido na América e depois é que emigrou com 12 anos para a Austrália, ou que o Braveheart era o primeiro filme dirigido pelo Mel Gibson, quando já tinha feito em 1993 o The Man Without a Face),  nem sequer os termos cinematográficos são os mais adequados (os termos usados aqui, são os "meus" termos, como fotografia, realização ou edição). Este blog é a forma como eu vejo os filmes, e não são propriamente críticas ou apreciações científicas ou técnicas dos filmes ou do cinema em geral. Isto é como é eu vejo e sinto os filmes.
Poderia recomendar Eagle Eye, realizado por DJ Caruso e com produção executiva do homem com a fórmula mágica do sucesso, Steven Spielberg. Mas não recomendo. É um filme fraquinho, inserido naquela espécie geralmente denominada como blockbuster. Mesmo antes de o ver, percebe-se logo pelo trailer típico, que é um daqueles filmes com uma produção de milhões de dólares e que vive exclusivamente de perseguições e explosões. O argumento, que até poderia ser interessante, envolvendo uma conspiração muito high-tech, é tão fraco que ao fim de 25 minutos já se sabe tudo o que vai acontecer e como o filme vai acabar. Tirando o habitual twist, como é óbvio. O normal neste tipo de filmes: o bom ganha, o mau perde, coisas explodem durante o filme. Safam-se algumas perseguições, pelo realismo em detrimento do efeito digital e o ritmo totalmente alucinante da acção. Os actores até são bons o que não torna o filme insuportável. Mas além disto, pouco mais há para ver. Eagle Eye é mais uma daquelas "chicletes" para ver enfiado no sofá com as pantufas calçadas durante as tardes cinzentas de Outono. Ou nos feriados.
Com estes argumentos todos, dou-lhe @@/@@@ .

Tenho andado a pensar numa forma de classificar os filmes. Classificar, não. O termo mais correcto será quantificar os filmes.
Apesar de tudo, a classificação é bem mais fácil. Tirando os problemas óbvios dos filmes que têm vários géneros, é muito mais fácil. Um filme ou é de ficção científica ou um drama, um filme de acção ou um documentário. Há até aqueles filmes feitos especificamente para explorar o gosto do público por determinado género como o blaxpoitation. Há filmes que, apesar de não serem bons, são um marco do cinema precisamente por terem criado um novo género como o spaghetti western, por exemplo. Claro que isto não é assim tão simples. Porque o 2001: Odisseia no Espaço não é apenas um filme de ficção científica, nem o Apocalypse Now é um filme de guerra. Há filmes que pura e simplesmente não se conseguem encaixar num determinado rótulo ou género. Por estranho que possa parecer, normalmente até é o que distingue os grandes filmes dos demais. Mas sempre é mais fácil conseguir encaixar um filme num determinado género (ou vários) do que conseguir mostrar o seu valor.
Por isso é que nos jornais e afins, as atribuições dos críticos são tão díspares. Como se costuma dizer na gíria: "é conforme!". Isto é, depende de quem avalia. Se for um crítico mais "virado" para o cinema europeu, qualquer filme com o selo de Hollywood vai ser uma merda e só tem direito a 1 "estrelinha. Se for um crítico com outro interesse ou outra perspectiva diferente, a avaliação do filme muda. Isto sempre me pareceu demasiado abstracto e subjectivo. Portanto, tenho andado a pensar que tem de haver um método mais objectivo para quantificar um filme.
Primeiro pensei que as matemáticas e as médias seriam um bom método a aplicar, mas depois lembrei-me do Dead Poets Society e do sistema métrico de avaliação de poesia do Dr. J. Evans Pritchard, Ph.D.. Não me parece bem andar de regra e esquadro a fazer gráficos para avaliar o que quer que seja. Desisti dessa ideia e percebi que - mesmo que não se queira - há sempre uma grande dose de subjectividade nestas avaliações. O que não é assim tão negativo quanto pensava. Eu sei que é um contraditório afirmar isto, mas é verdade.
Da mesma forma que sempre achei que quantificar os filmes com 5 "estrelas" era demasiado redutor. Estava enganado outra vez. Após muita reflexão sobre o assunto cheguei à conclusão que É MESMO a melhor forma. (Isto acontece-me muitas vezes, contradizer as minha próprias opiniões). Com um acréscimo: a sexta "estrelinha". A "estrela" que distingue os excelentes filmes, dos filmes "fora da escala". Eis a minha lógica de pensamento.
Percebi que existem 5 tópicos (mais 1 extra) que definem a qualidade de um filme. E para tentar ser o mais objectivo possível, analiso os filmes como tendo o tópico preenchido ou não, de forma a eliminar a subjectividade o mais possível.

Primeiro: a realização geral. Na realização geral incluo a visão estética do filme, a direcção dos actores e a forma como são apresentadas as imagens. Convém não esquecer que um filme é acima de tudo uma mostra gráfica. Uma série de imagens estáticas colocadas em movimento. Neste ponto conta muito toda a equipa "visual" que um realizador junta à sua volta, como o director de fotografia, por exemplo. Mas também a visão particular do realizador. Como é que se apresentam emoções? Qual a melhor forma de mostrar arrependimento? Como se mostra à audiência que algo está para acontecer? Ou pôr-lhe os cabelos em pé? Ou dar-lhe um nó no estômago? Pois. Só um grande realizador sabe compor imagens para responder a isso. Outra coisa que se nota nos grandes realizadores é também um aspecto mais abrangente: domínio sobre o filme. Por isso mesmo, é raro um "assalariado" de estúdio conseguir fazer um grande filme. Um "assalariado" faz demasiadas concessões enquanto um grande realizador tem o filme todo na cabeça e controla todos os aspectos do filme. Isto nota-se num filme. Para o bem e para o mal.

Segundo: actores. O que é um filme sem actores? Nada. É como um actor sem público. Uma das forças motrizes de um bom filme são mesmo os actores. Mas não só. É também a escolha dos próprios actores. Alguém imaginou outro actor que não o Harrison Ford a fazer de Indiana Jones? Outro actor no The Shinning que não o Jack Nicholson? Outro Patton que não o George C. Scott? Pode não parecer, mas a escolha inicial de um determinado actor para um determinado papel é muito importante e decisivo para criar um bom filme. E, como é óbvio, o actor tem de ser mesmo bom e de ter um boa performance. Como se costuma dizer, se o actor fizer um daqueles "papelaços" inesquecíveis, mesmo um filme mediano torna-se logo bom.

Terceiro: a história. Antes de um filme existir visualmente, ele vai nascendo no papel através do seu guião. Não sei avaliar a qualidade técnica de um guião, mas mais importante do que isso é quando o realizador lhe dá vida. Mas começar com uma grande história, um tema totalmente inovador é meio caminho andado para ter em mãos um bom filme. Neste aspecto, saliento sempre um factor muito importante. O final da história. Quem escreve sabe bem que finalizar um boa história é sempre muito mais difícil do que iniciá-la. Não me estou a referir os célebres twists. Estou a referir-me àquela "boa" conclusão. Muitas vezes, os filmes têm boas histórias, desenvolvem-se bem, mas o final do filme deixa um sabor amargo. Finais demasiadamente "em aberto" (à europeu), totalmente previsíveis ou que dão tantas voltas (os tais twists) para baralhar o final óbvio, que acabam por ser novamente previsíveis.

Quarto: os aspectos técnicos. Som, luz, cor e efeitos especiais dão camadas extra a um filme. E se elas forem todas muito boas e equilibradas, a qualidade de um filme aumenta exponencialmente. Isto nota-se, pela negativa nos blockbusters. A camada dos efeitos especiais é tão espessa que por vezes tapa todo o filme. Por isso é que é raro ver um "blockbuster de efeitos" que seja um bom filme. Pelo lado positivo, aspectos técnicos bem concebidos, que ajudem a contar a história e exponenciem o trabalho dos actores, elevam os filmes à categoria de clássicos. É como a construção de um pintura: começa-se pelo esboço a carvão, lima-se os pormenores, acrescentam-se cores e finaliza-se os retoques.

Quinto: ritmo. Um dos elementos menos visível de um filme é a montagem. Pode não parecer, mas saber quando cortar uma cena ou prolongá-la faz toda a diferença. Isto é muito importante porque marca o andamento de um filme. Pode torná-lo hiper-rápido ou insuportavelmente lento. Há aqui um paralelismo directo com a música. Há que saber quando meter as guitarradas estridentes e as melodias calmas. Um bom filme tem um equilíbrio perfeito entre a acção e o diálogo. É como uma música dos Pink Floyd: não se percebe muito bem porquê, mas têm o ritmo perfeito. Um bom filme é igual. Tem de ser consistente, mas conseguir, de tempos a tempos, fazer-nos dar um salto na cadeira.

Por último: a sexta "estrela". A "estrela" que faz toda a diferença. Pensei muito no assunto e reparei que o que faz os grandes filmes é sua durabilidade. Ou seja, a capacidade de resistirem à passagem do tempo. É como toda a restante arte: a que faz a diferença é a que perdura. Fazer um filme perdurar no tempo é talvez o mais difícil. Já me aconteceu "n" de vezes rever um filme que achava excelente, mas que agora noto que ficou "marcado" no tempo. Uma pessoa percebe que aquele filme é da década de 70 ou 80, que os aspectos técnicos estão "marcados" e/ou desactualizados, que a temática só tinha validade num tempo específico ou que era dum determinado género que entretanto passou de moda. Acho que esta última "estrela" é o que faz os bons filmes saltarem para uma classe à parte. A classe dos "intemporais". Por isso é que há tão poucos.

Resumindo. Para um filme ser bom é necessário existir uma grande colaboração de talentos em volta de uma boa história, liderados por um líder exemplar. Mas para um filme ser intemporal (até resistir à crítica) é absolutamente necessário que o "homem do leme" consiga criar "aquela estrelinha" extra para colocar no final. Vou ver um filme qualquer só para experimentar esta nova classificação. Perdão. Quantificação.
 
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