Não me vou demorar muito com isto. Não vale a pena. É mau demais para perder muito tempo a escrever. The Happening é um filme de  M. Night Shyamalan que tem 10-15 minutos mais ou menos razoáveis no ínicio quando "entra" na premissa. Um estranho acontecimento assola Nova York: as pessoas param de repente a sua rotina diária e suicidam-se sem motivo aparente. Até aqui ainda se consegue ver. O resto é "palha" que não acrescenta nada à história, apenas tempo de filme...
Para não ser muito insultuoso, pode-se dizer que acaba por ser um exercício cinematográfico inexplicável e acima de tudo incoerente. Vindo dum gajo que tinha dado (muito) boas indicações com os dois primeiros fimes é ainda mais decepcionante.
The Happening não explica nada, não diz nada. E de repente tudo volta normalmente ao início e o filme acaba. É ridículo. É um daqueles filmes para NÃO se ver. Desde a história aos actores, nada escapa à fúria de nulidade. É uma perda enorme de tempo. Mais vale tirar uma soneca de 90 minutos.
É caso para dizer: "i see shitty films..." ○○○○○

Hairspray não é dos musicais que mais ansiava por ver, mas como estava a dar na TV aproveitei a oportunidade. Pelo aspecto inicial, pensei que não chegaria ao final. Mas curiosamente até o achei medianamente bom. Isto apesar de ser demasiado "cor de rosa" para o meu gosto.
Enquanto procurava alguma informação sobre o filme, descobri que é uma adaptação de um musical da Broadway com o mesmo nome, que por sua vez tinha sido adaptado do filme original de 1988 (também chamado Hairspray) que tinha sido realizado pelo "louco" John Waters. Quando li John Waters, pensei que seria um outro realizador, mas afinal era mesmo ele. Aparentemente - diz a ficha técnica - ele até aparece no filme, mas por qualquer motivo não o vi...  Já tinha percebido que o Waters tinha "amolecido" com a idade, só não sabia é que tinha sido tanto... 
Hairspray aproveita o tom rosa e inocente da história para tocar num assunto sempre problemático que é o da segregação racial nos Estados Unidos. "Alfinetadas" à parte, Hairspray tem uma ou outra música catita, especialmente a do final e muitos e bons actores, todos eles com dotes musicais que eu desconhecia, como James Marsden, Michelle Pfeiffer ou Christopher Walken. Também há "cantantes" profissionais como Queen Latifah ou Zac Efron, que é cada vez mais um actor que me surpreende apesar daquele aspecto Disney. Nesse campo dos actores, tenho que destacar a personagem "pesada" do John Travolta. Até nem sou grande fã do Travolta, mas aqui tenho de dar o braço a torcer: está simplesmente brilhante. ●●○○○


The Gauntlet, traduzido (desta vez, bem) como Barreira de Fogo é um filme de e com Clint Eastwood. Ainda há pouco tempo falei deste filme a propósito de Wara no Tate. Não sei se alguém na RTP1 anda por aqui a ler, mas o que é certo é que repuseram o filme. E ainda bem. Tinha saudades destes filmes "à moda antiga". E este é uma raridade.
É um daqueles filmalhaços violentos, politicamente incorrectos, "macho e duro de roer", vindo do tempo em que se pintavam cartazes (este, em particular, é excelente) como forma de promoção. Um dinossauro, portanto. Mas é um bom dinossauro. Já o vi há muitos anos e ainda se mantém relativamente fresco na memória, o que é sempre um óptimo sinal.
Lembrava-me particularmente do facto de haver milhões de tiros disparados em meia dúzia de cenas. Aliás, não lembro dum filme onde sejam disparados tantos tiros. É um exagero. Por isso é que a tradução como Barreira de Fogo está bem conseguida. Sem me repetir muito, é um exagero de tiros. Deitaram a abaixo uma casa a tiro, por isso já se vê a quantidade inacreditável de balas disparadas. Já para não falar da cena final, onde o stock americano de balas de cinema deve ter ficado um bocadito em baixo. Não resisto a dizê-lo novamente: é um exagero.
Mas como tantas outras coisas neste filme, esse exagero acaba por ser fixe. Mas isto também pode ser a minha imparcialidade a falar. É que eu gosto muito dos antigos filmes do Clint Eastwood. E também do próprio Eastwood.
Acho que fez uma transição muito engraçada dos westerns para os filmes "normais", como os policiais. Quer dizer, não sei se se pode considerar bem uma transição, porque basicamente ele trocou os cavalos por carros e os jeans e o chapéu por fato e gravata. O resto manteve-se exactamente igual. The Gauntlet, por exemplo, deve estar catalogado como uma história policial, mas para mim continua a ser um western. A diferença aqui, é que este filme é passado no tempo actual, os homens vestem fato e gravata e os pistoleiros andam de carro e de moto em vez de cavalos...
Mas também não posso ser assim tão redutor. Para já tem a Sondra Locke a representar uma mulher (muito) emancipada e totalmente fora da "trela masculina imaginária" da altura. Convém não esquecer que é um filme do longínquo ano de 1977. Mas também porque o filme está recheado de pormenores muito avançados para o seu tempo e para o tipo de filme que é. Tem até pormenores de argumento onde o Tarantino nitidamente se veio inspirar como naquela cena em que Eastwood entra num café e a empregada desata a falar com ele sobre tudo e mais alguma coisa sem que ele nunca abra a boca. Muito bom. Não é uma obra-prima, e até o próprio Clint Eastwood já fez muito melhor, tanto como realizador como actor, mas é um filme que tendo oportunidade, nunca deixo de (re)ver. ●●●○○

Na Idade das Trevas - aquele período da História muito parecido com a Idade Média -, o sétimo filho do sétimo filho protege os coitados dos aldeões, de dragões, bruxas, demónios e ainda mais alguns bichos e monstros. Agora que está a ficar mais velhote e se quer reformar, o sétimo filho do sétimo filho precisa dum aprendiz que... bah! Não interessa! Seventh Son é um daqueles filmes de acção/fantástico/efeitos especiais que só servem para passar o tempo. É igualzinho a todos os outros filmes que envolvem a Idade Média, aldeões, dragões, bruxas, demónios, bichos e monstros.
Se no elenco não estivessem nomes como Julianne Moore e Kit "Jon Snow" Harington, provavelmente nem chegaria às salas de cinema... Mas por outro lado, é exactamente por isso mesmo que estão no elenco, nao é verdade?
O melhor deste filme e o seu grande trunfo é mesmo o Jeff Bridges. Só a presença dele faz o filme valer a pena. Acho até que deveriam renomear o filme para "The Dude goes to the Middle Ages". Só ficava a ganhar. ●○○○○

O que é que acabou de acontecer? Alguém me explica? A grande questão aqui é: sobre o que é que se trata Jupiter Ascending? A resposta mais simples seria que se trata de uma empregada de limpeza de Chicago que se torna Imperatriz do Universo e Dona do Planeta Terra, depois de estar envolvida numa disputa palaciana. A resposta mais complexa será que é uma grande incógnita.
Porque na realidade Jupiter Ascending não tem propriamente um guião. Não tem história. É um trailer gigante de duas horas, tão cheio de efeitos especiais e cenas de acção desencontradas da narrativa que mais parece uma apresentação de um jogo de computador.
Fico à espera que o filme saia completo numa próxima edição especial e que dessa venha com a história.
É um filme que não tem absolutamente nada de original. É uma mistura esquisita de Star Wars com elementos do Star Trek, os cenários e algumas naves do Dune e outros filmes que os irmãos Wachowskis têm andado a ver. Ainda não percebi se os últimos filmes são homenagens aos clássicos da ficção científica ou se são meramente cópias descaradas. Não acredito que eles nunca tenham visto os filmes mencionados. Mas é estranho que o façam. Tem um cena envolvendo burocracia que foi tão obviamente copiada do Brazil que até arrepia. Até a questão da colheita dos humanos são eles a copiarem-se a eles próprios em Matrix. Mas há mais. Em vez de ver o filme, acabei por me divertir a tentar encontrar referências a outros filmes. Quando isso acontece nunca é bom sinal. Jupiter Ascending é um desperdício galático de trabalho, recursos e dinheiro.
Channing Tatum, é o típico anti-herói de serviço, só que parece que está a fazer o favor de fazer o filme. Vá lá que o Sean Bean acaba o filme vivo! Deve ser a única grande surpresa do filme...
E para terminar em grande, a rapariga Jupiter (Mila Kunis) que acaba como dona da Terra, acaba a história feliz por voltar ao planeta com o seu antigo trabalho a limpar sanitas... a sério?! Demasiado pobre para ser verdade. Este filme só pode ser um enorme glitch na Matrix... ●○○○○


Há filmes que por natureza não vejo. Ou porque os trailers mostram um filme pateta igual a milhares de outros e não me apetece perder tempo a vê-lo, ou porque são comédias românticas de domingo à tarde. Filmes com banda sonora de rap (ou hip hop e categorias semelhantes) e de danças urbanas com adolescentes também passo. Não é um tipo de música que goste, portanto não me diz nada.
Pensei que era um filme sobre rap e/ou sobre a história do Eminem. Não sei onde fui buscar esta ideia. Por esta razão, achei que o filme não era para mim e andei anos sem ver 8 Mile. E foi um erro enorme. Porque definitivamente, 8 Mile é um filme muito bom.
Mal acabei de ver o filme, fui pesquisar um pouco e descobri que o Eminem ganhou o Óscar para a Melhor Música Original. Pelos vistos foi a primeira vez que um rapper ganhou este prémio. A música chama-se "Lose Yourself" e dá o tom ao filme. Só para tirar uma dúvida dei-me ao trabalho de procurar a letra...

"Lose Yourself" 
Look, if you had, one shot, or one opportunity
To seize everything you ever wanted. In one moment
Would you capture it, or just let it slip?
Yo

His palms are sweaty, knees weak, arms are heavy
There's vomit on his sweater already, mom's spaghetti
He's nervous, but on the surface he looks calm and ready to drop bombs,
But he keeps on forgetting what he wrote down,
The whole crowd goes so loud
He opens his mouth, but the words won't come out
He's choking how, everybody's joking now
The clock's run out, time's up, over, bloah!
Snap back to reality, Oh there goes gravity
Oh, there goes Rabbit, he choked
He's so mad, but he won't give up that
Easy, no
He won't have it, he knows his whole back's to these ropes
It don't matter, he's dope
He knows that but he's broke
He's so stagnant, he knows
When he goes back to his mobile home, that's when it's
Back to the lab again, yo
This whole rhapsody
He better go capture this moment and hope it don't pass him

[Hook:]
You better lose yourself in the music, the moment
You own it, you better never let it go (go)
You only get one shot, do not miss your chance to blow
This opportunity comes once in a lifetime yo
You better lose yourself in the music, the moment
You own it, you better never let it go (go)
You only get one shot, do not miss your chance to blow
This opportunity comes once in a lifetime yo
(You better)

The soul's escaping, through this hole that is gaping
This world is mine for the taking
Make me king, as we move toward a new world order
A normal life is boring, but superstardom's close to post mortem
It only grows harder, homie grows hotter
He blows. It's all over. These hoes is all on him
Coast to coast shows, he's known as the globetrotter
Lonely roads, God only knows
He's grown farther from home, he's no father
He goes home and barely knows his own daughter
But hold your nose 'cause here goes the cold water
His hoes don't want him no more, he's cold product
They moved on to the next schmoe who flows
He nose dove and sold nada
So the soap opera is told and unfolds
I suppose it's old partner but the beat goes on
Da da dum da dum da da da da

[Hook]

No more games, I'm a change what you call rage
Tear this motherfucking roof off like two dogs caged
I was playing in the beginning, the mood all changed
I've been chewed up and spit out and booed off stage
But I kept rhyming and stepped right into the next cypher
Best believe somebody's paying the pied piper
All the pain inside amplified by the fact
That I can't get by with my 9 to 5
And I can't provide the right type of life for my family
Cause man, these goddamn food stamps don't buy diapers
And it's no movie, there's no Mekhi Phifer, this is my life
And these times are so hard, and it's getting even harder
Trying to feed and water my seed, plus
Teeter totter caught up between being a father and a prima donna
Baby mama drama's screaming on her
Too much for me to wanna
Stay in one spot, another day of monotony
Has gotten me to the point, I'm like a snail
I've got to formulate a plot or I end up in jail or shot
Success is my only motherfucking option, failure's not
Mom, I love you, but this trailer's got to go
I cannot grow old in Salem's lot
So here I go it's my shot.
Feet, fail me not, this may be the only opportunity that I got

[Hook]

You can do anything you set your mind to, man

...Sinceramente, não entendo. Não é a letra, é a extensão dela! Como é possível alguém conseguir decorar isto tudo? Ainda por cima, junto com muitas outras músicas do filme. Juro que não entendo.
E então apercebi-me que o meu não entendimento era uma constante neste filme. Passo a explicar. Há coisas que naturalmente me causam repulsa. Uma delas é a decadência. Quando se assiste diariamente à decadência, ela deixa de ter glamour... Também por essa razão eu não deveria ter gostado de 8 Mile, mas gostei. Em 8 Mile, a decadência não é só uma condição em que as personagens vivem; a decadência é quase uma personagem. Está tão bem tratada, estilizada, filmada e tão presente que interaje com os actores. Isto é sinal de um realizador que tem muito tacto social. Quer isto dizer que Curtis Hanson é um daqueles realizadores que tem os pés no chão, que observa as a interagirem na vida real e transpõe-na para o cinema com todas as suas qualidades e defeitos inerentes.
Depois tem Eminem. Eu sou um gajo do rock e do punk, por isso o hip hop, o R&B e restantes sucedâneos não fazem efeito. Pelo contrário, é um tipo de música que me faz mudar a estação de rádio. Mais uma razão para eu não ter gostado de 8 Mile, mas acabei por gostar. E pensando bem, a banda sonora não podia ser outra. Este é o tipo de música que melhor encaixa na história. E embora me custe admitir, o Eminem surpreendeu-me bastante como actor. Podem ter sido dicas de representação da Kim Basinger, pode ter sido pelo facto de ele ser originário duma zona "maravilhosa" como Detroit, por ter tido uma vida pessoal relativamente semelhante à do papel que intrepreta, mas também há a hipótese do gajo poder ser mesmo bom. O que é certo é que está perfeito no papel. Brittany Murphy, no papel de companheira à distância, movida pelo interesse pessoal também está muito bem, como sempre.
8 Mile é um retrato muito bem feito da decadência das grandes periferias, da cultura white trash nas suas caravanas arruinadas e imundas, das lutas pela sobrevivência urbana, em que o mundo dos gangs muitas vezes parecem ser a única salvação para quem sabe que não tem salvação possível, mas sobretudo mostra como por vezes, a salvação vem dos sítios mais inesperados. Mas acima disto tudo, 8 Mile é um filme dramático, tenso, excepcionalmente bem ritmado e no geral, muito bom. Posso dizer que 8 Mile é um daqueles bons filmes "à moda antiga", muitíssimo bem dirigido por Curtis Hanson, que merece ser visto, mesmo que à partida o tema não seja (aparentemente) muito agradável. ●●●●○

Wara no tate é um filme japonês, traduzido como Shield of Straw, algo como Escudo de Palha. É um título estranho, mas que bate certo com a história do filme.
Kyomaru, um perverso psicopata mata uma menina de 7 anos e acaba preso. Acontece que essa miúda era neta do homem mais rico do Japão, que imediatamente compra espaços publicitários em todos os jornais do país para ofererer biliões pela cabeça morta de Kyomaru. A proposta é ilegal mas simples: quem matar Kyomaru recebe a recompensa. Está assim aberta a época de caça.
Entre ele e os caçadores de recompensas que pode muito bem ser qualquer pessoa, estão cinco polícias que têm a dura e quase impossível missão de levar Kyomaru até uma esquadra do outro lado da cidade.
Tudo o que é bom no filme, está condensando nesta ideia. O resto desiludiu-me.
Se o filme é melhor do que parece é porque tem um tom engraçado e estranho, mais próximo da áurea esquisita e histérica do anime que outra coisa. Mas provalmente é mesmo só porque o casting é oriental. Nesse aspecto, tenho imensa dificuldade em comentar o que quer que seja. Vejo muito poucos filmes orientais e raramente consigo decorar os nomes dos actores. Já para não falar que também não consigo associar os nomes às caras. Os únicos que reconheci neste filme foram a Nanako Matsushima que já apareceu no filme de culto Ringu, também conhecido como The Ring na versão americana e Tatsuya Fujiwara do clássico Battle Royale. Quanto ao resto do "pessoal" acho que já vi alguns deles noutros filmes, mas sinceramente não os consigo identificar. Na parte da representação propriamente dita, nunca há nada a apontar a actores orientais. Parecem sempre empenhados a 101%... 
Shield of Straw tem um boa história por base, mas acaba maltratada. E nem sequer é algo totalmente novo. Lembro-me do velhinho The Gauntlet de 1977, de e com Clint Eastwood. (E, sim, Eastwood já realiza filmes há muitos, muitos anos)
Wara no tate é um filme sobre frieza, vingança, honra e sobre o cumprimento do dever acima de tudo. Algo tipicamente japonês. Mas é mais um chavão para ter nos cartazes do que uma parte da história...
Vi o filme porque tinha como realizador Takashi Miike. E de Miike, lembro-me vagamente de ver Full Metal Yakuza, mas lembro-me muito bem de Audition e de Ichi the Killer, numa daquelas maratonas de filmes orientais do Fantasporto. Para quem não conhece, estes são filmes que fazem revirar as entranhas, engolir em seco e desviar o olhar... Nesse aspecto, este filme surpreendeu bastante: é demasiadamente brando com o espectador. ●●○○○


Se o som possante duma bateria tocada a toda a força é um bocado demais para os vossos ouvidos então não vejam Wiplash... vão acabar com uma dor de cabeça do tamanho do universo.
Porque este filme é mesmo só isto: um professor, um aluno e a sua bateria. O aluno é interpretado por um desconhecido, mas brilhante actor chamado Miles Teller; o professor obstinado é um genial J.K. Simmons, do qual só me lembro de ver como eterno actor secundário. Grande erro. Onde é que andavam estes dois actores escondidos? A resposta parece estar na cabeça de Damien Chazelle, o gajo que conseguiu ver o que mais ninguém conseguiu... Chazelle parece ser daqueles realizadores com tanta visão, que consegue passar tanta intensidade para o ecrã, que se eu fosse produtor, dava-lhe o livro de cheques para a mão e dizia-lhe simplesmente: "faz o que quiseres, mas quero outro filme com a mesma intensidade dramática do Wiplash...".
Mas como acontece com todas as obras geniais, obviamente que Wiplash é muito mais que um professor, um aluno e a sua bateria. É chegar aos limites e ultrapassá-los. É sobre ser mais do que aquilo que se é. É aguentar quando já não se aguenta mais. É esforço, força, suor, lágrimas e sangue.
A primeira coisa que me chamou à atenção foi o título. É mesmo muito apropriado, porque é um reflexo do próprio filme. É como o som de um chicote: rápido, dilacerante, frenético, doloroso, explosivo.
Wiplash tem um tom amargo, muito, muito amargo. Não estava à espera. Em muitos daqueles momento duros do filme em que o estômago se encolhe e dá voltas, lembrei-me de Lars Von Trier. Se me dissessem que ele tinha andado por lá atrás das câmaras não estranharia muito. Mas a sensação "má", aqui, não causa repulsa, dá a sensação de se ter uma fibra dura, inflexível, que liga todo o filme.
Só há uma palavra para este filme: genial! É uma pérola dos tempos modernos e um clássico instântaneo. É muito bom. Emendo o que disse: é excelente! ●●●●●

Tenho de admitir. Speed Racer é melhor do que pensava e muito melhor do que parece no trailer. Não chega aos calcanhares de outros Wachowski, mas até é aceitável.
A história é das típicas... Há uns bons que "têm" de ganhar uma corrida (por um motivo heróico e questões de honra) mas os maus não vão deixar que isso aconteça. É como é típico, os bons acabam por ganhar no fim... O elenco é estranho, mas tem pessoal bom. O papel principal foi deixado ao desconhecido (pelo menos para mim) Emile Hirsch, mas não se nota que está pouco à vontade no papel porque tem "ao lado", uma Christina Ricci a mostrar que uma coisa é a vida pessoal do actor e outra coisa é o trabalho do actor, John Goodman, um gajo que gosto sempre de ver, desde os tempos de Raising Arizona, mas espeialmente uma "senhora" chamada Susan Sarandon, que não me lembro de alguma vez ter uma má prestação. E também por lá aparece o Matthew Fox, porque na altura havia muitos fãs do Lost...
Ao princípio estranhei bastante este Speed Racer. Principalmente porque já vinha muito mal sugestionado por um daqueles trailers que só dão dores de cabeça. E estive quase a desistir quando apareceu o macaco. Não conseguia superar aquela personagem. Em vez de ver o filme, só pensava: porquê? Porquê o macaco? Qual o significado do macaco? Quem é que tem como animal de estimação, um macaco? O macaco não me saía da cabeça. Depois, pela maneira como o filme se desenrolava percebi que aquilo só podia ser anime. Mal terminou o filme fui pesquisar e vi que era de facto inspirado num anime/manga. Foi um alívio... Pensei que o macaco era... Bem, acho que já chega de falar no macaco...
Speed Racer é aceitável, mas é uma quimera. É uma combinação exótica de colossais efeitos digitais dos estúdios de Hollywood, misturado com momentos e cenas de cores carregadas, típicas de Tim Burton vintage, embrulhadas naquela estranhice muito fixe dos animes/mangas. E até ainda tem algumas poeiras de Matrix... Tudo a reluzir sob o efeito de néons psicadélicos.
Para mim, se o filme perde é essencialmente por ser tão absurdo e tão absolutamente hiper-exagerado. Pode ser um reflexo da tentativa de fazer um anime com actores reais, mas também pode ser exagero dos efeitos especiais ou da mente hiperbólica dos irmãos Wachowski. Menos é mais, é daqueles chavões que encaixam perfeitamente bem com Speed Racer. Estranhamente, sinto que com o passar do tempo, acho que é um filme que vai melhorar do lado da crítica. ●●○○○


Num futuro próximo, os robots são uma constante da vida quotidiana. Quando o Dr. Alfred Lanning (James Cromwell), o mais conceituado cientista envolvido no desenvolvimento destas máquinas aparece morto, entra em acção o detective "robofófico" Spooner (Will Smith) para desvendar o crime. O aparente suicídio levanta muitas dúvidas e a investigação vai ao encontro de um robot muito especial chamado Sonny. Tudo indica que o robot é o culpado da morte do Dr. Lanning. Tudo isto é só a ponta do iceberg. O pior ainda está para vir, porque há uma conspiração por trás do crime...
A explosiva combinação Hollywood e blockbuster normalmente arrasa qualquer filme. E foi por um triz que não arruinou I, Robot de Alex Proyas. Provavelmente foi mesmo por ter o Alex Proyas à frente das câmaras que o filme ainda consegue chegar a padrões aceitáveis.
A base do filme é muito boa. As opiniões dividem-se entre uma colecção de histórias de Isaac Asimov e as aventuras de um robot chamado Adam Link escritas por Earl e Otto Binder. Nunca tive a oportunidade de ler nem um nem outro, portanto não sei quem será o "culpado" desta excelente história de ficção científica. O que sei é que a história é muito boa e o filme é medianamente bom, se considerarmos que hoje em dia o mix ficção científica/acção normalmente só gera anormalidades digitais. Tem muito bons momentos de cinema à Proyas, tem excelentes ideias, e é talvez um dos melhores a tratar a elevação das máquinas e a inteligência artificial, isto numa altura em que a IA ainda não estava muito na moda.
I, Robot tem excelentes efeitos especiais (como acontece com qualquer blockbuster que se preze), mas se calhar o melhor é mesmo o design de toda a produção, culminando numa das melhores representações de robots que já vi. Se chegarmos ao ponto de haver robots a passear pelas ruas (ou a patrulhá-las), tenho quase a certeza que serão muito parecidos com estes. Mas isso já é outra história...
Pelo lado negativo, há o casting. Não sei porquê, mas o Will Smith não encaixa bem neste filme. Até tem as suas piadas da praxe, mas há qualquer coisa que falha. E o resto do elenco também não ajuda. Fiquei com a sensação que por vezes os actores desapareciam do filme...
Tirando o excessivamente longo final que exagera nas cenas de acção (que não acrescentam nada à história) e que parecem que lá estão só para acrescentar tempo de filme e... acção, este é um dos poucos blockbusters que tem algum miolo. ●●●○○

A saga Police Academy é caso para um estudo aprofundado sobre a evolução da sociedade. Pelo menos, da sociedade que se senta numa sala de cinema ou em casa para ver um filme. É caso para dizer: "só mesmo nos anos 80!" A lista de sequelas é épica e só pode ser comparada com os sucessos em contínuo das franchises dos filmes de terror: Police Academy, Police Academy 2: Their First Assignment, Police Academy 3: Back in Training, Police Academy 4: Citizens on Patrol, Police Academy 5: Assignment: Miami Beach, Police Academy 6: City Under Siege e Police Academy: Mission to Moscow. (Fogo! Só enumerar os filmes já é uma trabalheira...)
Quando era miúdo adorava estes filmes. Ria que me fartava com os tombos e as palhaçadas. Adorava as partidas desmioladas que os maus pregavam aos bons e ainda adorava mais quando no final os bons passavam uma rasteira aos maus. Police Academy era pura inocência... Pelos vistos, e de devido ao enorme sucesso dos filmes, não estava sozinho. Deliciava-me com a autêntica parada de personagens estereotipadas: o Steve-Mahoney-Guttenberg, o Jones, aquele gajo que imitava todos os sons (Michael Winslow), a boazona Callahan das big boobs (Leslie Easterbrook), o Bubba-big-black-dude-Smith, o gajo-louco-tipo-animal-dos-marretas, o inesquecível Zed (Bobcat Goldthwait) e o inseparável companheiro Sweetchuck (Tim Kazurinsky), o Tackleberry (David Graf) uma espécie de Harry Callahan destrambelhado, o distraído Comandante Lassard  (George Gaynes) e o mau da fita, o Tenente Harris (G.W. Bailey), bem como o seu lambe-botas de estimação Proctor (Lance Kinsey).
Mas não foram só "desconhecidos" a passarem pelo elenco: também por lá passou a Kim Cattrall, a Sharon Stone, o Ron Perlman e até o Christopher Lee! Este é aquele caso em que se pode dizer que todos temos os nossos maus momentos na vida...
Lembro-me que nessa altura era grande sucesso o tema dos polícias, especialmente a mítica série de TV, Hill Street Blues, donde até parece terem sido copiadas algumas das personagens. Lembro-me também que estavam na moda as comédias tipo Porky's e Bachelor Party (Solteiros e Tarados, em português) e parece-me que alguma da inspiração também veio daí.
Devo ter visto estes filmes umas boas dúzias de vezes. Gosto deles porque me lembra uma altura em que tudo era inocente. Quer dizer, nada era inocente, eu é que via as coisas de outra forma. É como ver alguém a passar numa bicicleta BMX com um amortecedor no meio: não é a bicicleta que é de boa qualidade, o que ela lembra é que é bom. Police Academy é mais um caso agudo de saudosismo que outra coisa.
O Canal 1 andou a repôr alguns dos filmes e não resisti a ver umas cenas aqui e ali. E todos os filmes que já pareciam maus, hoje ainda pareceram (muito) piores. Não consegui aguentar ver mais que uns minutos, mas deu para perceber que mais que uma série de filmes, Police Academy funcionou durante tanto tempo, porque basicamente era uma "série de TV" que era projectada nos cinemas. Só que era uma série com episódios de hora e meia e que só davam de ano a ano. Aliás, os filmes parecem filmados como uma série. Por vezes parecem quase telefilmes. Não é de estranhar que a maior parte dos realizadores destes filmes pertencem ao mundo das séries de TV...
Mas se se pensar bem, este é um fenómeno estranho. Mesmo sendo um objecto de quase nulidade cinematográfica sempre foram um sucesso. O filme original deu origem a 6 sequelas e acho que até chegou a haver uma série de TV!. E haverá alguém que nunca ouviu falar da Academia de Polícia? Tenho muitas dúvidas...
Por muito maus que sejam, estes filmes marcaram uma era (ou o fim dela?) e, pessoalmente, marcaram a minha juventude. Apenas e só por isso levam a "estrelinha", porque como filmes, são uma nulidade.
Só espero é que não se lembrem de fazer um remake desta coisa. Ou mais correctamente, um reboot, porque já se conta com as (possíveis) sequelas e tudo... ●○○○○














Conan, a mítica personagem de Robert Howard foi adaptada para cinema no longínquo ano de 1982. Mesmo para quem não gosta muito de BD's (como é o meu caso), é uma daquelas personagens que toda gente conhece e que está tão enraizada na cultura popular como qualquer outro super-herói. Como não sou grande conhecedor do mundo da BD, dei uma leitura rápida na internet e fiquei a saber que Conan passou das mãos da Marvel (!) para a Dark Horse Comics em 2003. Faz muito mais sentido.
Em relação ao filme, Conan, The Barbarian é um dos dinossauros das adaptações de BD's. Vem de um tempo tão remoto, que ainda não existiam computadores pessoais, telemóveis, internet e a única rede social que existia chamava-se "a rua". O filme é do mais puro domínio do fantástico mas tem poucos efeitos especiais. Pelo standard actual, é caso para dizer: inacreditável.
Este é um daqueles filmes que adoro desde miúdo, e sempre que repete por aí em algum canal não resisto a vê-lo. Foi o que aconteceu... outra vez. Sobre o filme propriamente dito, não há muito a dizer a não ser que é muito bom... Os culpados deste sucesso são John Milius, Oliver Stone, Arnold Schwarzenegger, James Earl Jones e Basil Poledouris.
John Milius é principalmente culpado por conseguir juntar uma equipa fantástica e por escrever um argumento tão bem. Se formos ver o currículo, Milius nunca foi um grande realizador (não tem grandes filmes para referência), mas sempre foi um excepcional construtor de guiões. Apocalypse Now passou-lhe pelas mãos, portanto não é preciso dizer mais nada. Conan é só mais um da lista. Mas neste caso, fica muito bem na fotografia, porque Conan tem grandes sequências visuais e imagens icónicas.
Oliver Stone, para além de ser o reconhecido realizador que é, tem uma faceta menos conhecida que é a de escrever guiões. E também o faz muitíssimo bem. Midnight Express e Natural Born Killers, são só dois "pequenos" exemplos da mestria de Stone com as palavras. Não deixa de ser curioso que Stone e Milius parecem estar trocados de sítio: um é mais realizador, mas escreveu o guião, o outro é mais guionista mas ficou com a realização...
Basil Poledouris também é culpado, mas pelo lado sonoro. Conheço bastantes bandas sonoras originais e excluindo os musicais, esta é uma das melhores de sempre, se não mesmo a melhor. Acho isso excelente, principalmente porque Conan é um filme de acção/fantástico e normalmente, estas bandas sonoras limitam-se a acompanhar o "tempo" da acção. Basil Poledouris conseguiu criar música original que verdadeiramente complementa e une as imagens do filme. Muito bom.
James Earl Jones é o culpado de ser um dos melhores vilões de sempre. Não sei se é a aparência, se é aquela voz de Darth Vader, mas há qualquer coisa estranha que acontece quando Jones aparece nos filmes. Além disso, tem sempre aquela figura intimidante e aqueles olhos penetrantes... Foi uma excelente escolha de casting.
Finalmente, o homem dos músculos: Arnold Schwarzenegger. Ele é culpado por ser tão... Conan. Vá lá... mas existe mais alguém que possa interpretar o papel de Conan para além de Arnold?! Se o "verdadeiro" Conan fizesse uma viagem à realidade e eu o visse algures por aí, de certeza que dizia: "este gajo não é nada parecido com o Schwarzenegger!" Sempre achei que gajos com músculos não sabem representar, e Schwarzenegger não é excepção. Foram precisas décadas para Schwarzenegger atingir um patamar aceitável na área da representação, mas acabou por lá chegar. Neste caso, nem sequer era preciso. Conan e Schwarzenegger com a sua falta de jeito natural, encaixam tão perfeitamente, que era impossível arranjar outro actor para este papel.
Uma referência ainda para Max von Sydow, um daqueles "senhores" inesquecíveis do mundo dos filmes.
Conan, The Barbarian marcou a minha juventude. Foi dos primeiros filmes do género fantástico que vi. Pensando bem, acho até que foi dos primeiros filmes de qualquer género que vi! E mesmo hoje em dia, tantos filmes depois, posso dizer que (ainda) é um dos melhores. ●●●●○


Conan, the Destroyer
Pouco conhecida é a sequela de Conan que depois de bárbaro, passou a Conan, The Destroyer. E não é muito conhecida, porque simplesmente é má. Apesar de eu gostar muito do Richard Fleischer e da Grace Jones, não consigo superar o facto de que este é um filme mau. É apenas um aproveitamento imediato do sucesso do primeiro filme. Mas ser um filme sem chama, monótono, previsível, com maus efeitos especiais e que parece ter sido feito à pressa para corresponder à procura dos fãs, acaba por ter um lado positivo: mostra como é difícil fazer um filme deste género sem que se torne... patético. ●○○○○


Conan, The Barbarian (2011)
O que dizer do novo Conan, The Barbarian, agora protagonizado por Jason Momoa (...quem?!)? Posso dizer o mesmo que digo sempre deste tipo de remakes... filme de acção, efeitos especiais, algumas explosões, corpos esbeltos e jovens por todo o lado, roupas curtinhas, vazio de novas ideias (quanto mais não fosse, porque é mais um remake a juntar à avalanche de remakes da actualidade), uma chiclete para consumir e deitar fora. É mais um produto para a classe juvenil que outra coisa. Não tem nada que seja memorável ou que se aproveite. Mas admito que esta apreciação também pode ser o meu ressabiamento por estarem constantemente a denegrir os filmes que adoro fazendo remakes sem parar... ●○○○○


+ bónus
Red Sonja
Aproveitando a febre "Conan", ainda saiu para cinema um outro filme, Red Sonja, uma personagem feminina também saída da BD de Conan. Este filme foi traduzido em português como "Kalidor: A Lenda do Talismã" e foi mais um desastre de Richard Fleischer. Arnold Schwarzenegger não é Conan, mas sim Lord Kalidor... Confuso? Eu pelo menos estou... E é mesmo só isso: um filme que cavalga o sucesso de Conan e que quis colmatar a necessidade de mais filmes de espadas, feitiçaria, fantasia em tempos remotos e enormes músculos salientes. Como se comprova, é difícil fazer um filme dentro desta temática que não seja mau. O que torna o original Conan, The Barbarian sempre uma referência. Sou sincero, já vi este filme há muitos anos e já na altura o achei mau... nem imagino o que acharia agora. Alguns destaques: para Brigitte Nielsen, uma "ave rara" dos anos 80, que tem a particularidade de só ter entrado em maus filmes; para Sandahl Bergman, que no primeiro filme fazia de companheira de Conan e aqui é a vilã; e para a boa (!) banda sonora de um senhor chamado Ennio Morricone... Estranho, não? ●○○○○

Estava no sofá a ver um canal de cabo e começa a dar um filme com um look verdadeiramente estranho. Ainda por cima, na descrição do filme dizia que era sobre um rapaz que encontra um carro que consegue voar. Fiquei confuso. Pensei que era um erro da programação. Mas não. Era mesmo verdade! Era Chernaya Molniya, um filme russo de super-heróis (!?) traduzido como "A Super Máquina Russa". Pelo que se vê nos filmes ocidentais, a Rússia tem um enorme problema com filas de trânsito intermináveis e trânsito caótico, por isso um super-herói só podia ser mesmo um carro voador... Não consegui resistir a ver o desenvolvimento da coisa...
Para perceber este filme é preciso imaginar que estamos numa realidade alternativa e que a Rússia é o centro do Mundo. E que o centro do mundo do cinema é um sítio chamado "Hollywooduska". Só assim este filme da dupla Dmitriy Kiselev, Aleksandr Voytinskiy faz sentido.
Tem todo o aspecto, mecânica e defeitos do clássico filme de super-heróis, mas aqui, quem tem os super-poderes é um Volga, um carro dos "clássicos". É ver para crer. Por vezes tinha a impressão que estava a ver uma versão alternativa russa do Spider-Man mas com carros. Ainda mais entranho é que às vezes parecia que estava a ver um filme live-action da Disney, mas falado em russo. É muito estranho.
Tudo em Chernaya Molniya é "chapa 4" de Hollywood, tirando obviamente o orçamento e a realidade russa que é muito, muito, muito diferente e... é outro mundo totalmente novo.
Por muito que digam que estamos todos mais ligados, uma pessoa não está habituada a ter contacto com outras culturas que não a americana e a mais ocidental que até está cada vez mais americanizada. Pelos vistos, e pelo que é dado a mostrar pela "super máquina russa", apesar de todas as estranhas diferenças sociais, económicas e culturais, não deixa de ser curioso que até a cinzenta, enrugada e orgulhosa sociedade russa se está a americanizar...
Os efeitos especiais não ficam nada a dever aos dos filmes de Hollywood e são muito aceitáveis. A história, apesar de totalmente previsível, tem algum nexo... para o tipo de filme que é. O actor principal, Grigoriy Dobrygin, até nem pareceu mau, só que para ajudar ainda mais à confusão, é super parecido com o Hayden Christensen. Nada neste filme parece ser normal....
Chernaya Molniya é um filme estranho para olhos ocidentais, que se vê mais por curiosidade do que por razão qualquer... ●●○○○


Senna é um documentário sobre a vida e a carreira do mítico piloto de fórmula 1, Ayrton Senna. Vida e carreira? Haverá forma de separar uma coisa da outra? Vendo o documentário, parece que não. A vida de Senna passou-se quase toda num cockpit, ao volante de um carro de corridas. Tal como ele confidencia, correr era uma experiência mística. A condução acontecia num estado de quase inconsciência, automática, em transe, por um túnel de adrenalina. Era pura condução. Mas não era preciso que ele o dissesse. Quem via a competição de fora, percebia que havia ali algo de especial a acontecer entre aquele piloto, o carro e a pista. Senna, notava-se, mais do que correr para viver, vivia para correr.
O documentário foca toda a vida competitiva das corridas motorizadas, as relações familiares, mas especialmente as amizades e os ódios de estimação em pista (especialmente com outro génio do volante, Alain Prost, também conhecido como "o professor") e que culmina na infelizmente célebre prova em Ímola, no Grande Prémio de San Marino. É tudo tão trágico que parece ter saído de um guião de cinema. A realidade, mais uma vez, ultrapassou a ficção.
Grande parte da carreira de Senna também parece saída de um filme. O primeiro grande prémio foi ganho em Portugal em 1985, ao volante de um Lotus, aquele carro icónico preto e dourado.
As contendas com Prost, o piloto pragmático, foram um extra para quem assistia de fora. Os dois pilotos eram tão antagónicos que só poderia dar choque. Apesar da rivalidade, eles acabaram por correr juntos na McLaren e Senna até foi campeao mundial pela primeira vez com Prost como companheiro de equipa. Já não me lembrava nada disto. Mas o mal-estar entre os dois era bem visível. Lembro-me que na altura, ou se puxava pelo Prost ou pelo Senna. Nao havia meio termo. Verdadeiramente digno de filme é a conquista do seu primeiro Campeonato Mundial. No Grande Prémio do Japão de 1988, Senna começa na pole position mas arranca mal e cai para os últimos lugares. Mas não desiste e vai ganhando lugares e, perto do final da corrida, acaba mesmo por ultrapassar Prost e terminar em primeiro. Épico.
Após a conquista de mais dois campeonatos mundiais e inúmeras vitórias em Grandes Prémios, a carreira de Senna termina abruptamente numa curva rápida de Ímola. É daqueles acontecimentos que de alguma forma têm um significado especial, porque quem o viu nunca mais esquece.
Nessa prova, que parecia estar amaldiçoada pelos deuses das corridas, Rubens Barrichello teve um acidente a grande velocidade, fez o carro voar contra um muro, mas saiu milagrosamente incólume. Um outro jovem piloto, o austríaco Roland Ratzenberger morreu nas provas livres e parecia que estava dado o mote da tragédia. Já durante o Grande Prémio, logo no arranque,  J.J. Lehto não consegue arrancar e é abalroado a grande velocidade pelo português Pedro Lamy tendo como consequência, alguns feridos nas bancadas com os pneus e detritos que voaram da violenta colisão. Depois de reatada a corrida, na sétima volta, Ayrton Senna é traído pela direcção do seu Williams, indo chocar a alta velocidade no muro da (agora) ínfame curva Tamburello. Tanta incidência, tanta tragédia numa só prova é inacreditável.
Lembro-me de inicialmente pensar que não tinha sido assim tão grave. Já tinha visto choques e acidentes piores e aquele parecia ser apenas mais um. Mas minutos depois, percebeu-se que algo de errado se passava. O errado era Senna não voltar mais à pista. O errado era Senna não voltar para junto dos aficionados. O errado era Senna não voltar com vida. O Mundo esteve todo errado naquele momento. Com esse acidente, Ayrton Senna, ainda um jovem piloto (tinha apenas 34 anos) de uma forma repentina e trágica, pagou o preço da imortalidade. Morreu o homem Ayrton e nasceu a lenda Senna.
Sempre gostei do Ayrton Senna - mesmo sem gostar particularmente de Formula 1 -, porque ele era um piloto que levava o carro aos limites: ultrapassava em sítios que diziam ser impossível, saía de pista por cima da relva, cortava chicanes, a cada curva que fazia parecia que se ia despistar e nunca desistia de querer ser melhor do que o que era. Admiro isso. Apenas conheci a persona mediática do piloto, mas parece-me que era uma boa pessoa. Parecia ser um gajo normal. É uma pena ter ido embora tão cedo...
Mesmo para quem não gosta de desportos motorizados - como é o meu caso - este é um documentário a ver com atenção. Pelo lado desportivo da coisa, sem nunca entrar no campo da especulação ou moralista de tentar culpar A ou B pelo acidente, mas essencialmente pelo lado emotivo e humano do piloto. Usando apenas entrevistas e imagens de arquivo, Senna é uma lição de Asif Kapadia sobre como se deve fazer um documentário emotivamente forte. É um documentário muito, muito bom. Para honrar um dos melhores pilotos de sempre, se não mesmo o melhor, só podia mesmo ser assim. ●●●●○

Estava a ver TV e ia começar um filme com o nome estranho de Kiss Kiss Bang Bang e onde contracenavam o Robert Downey Jr. e o Val Kilmer. Como o genérico inicial tinha bom aspecto e o nome do filme era estranho, deixei-me ficar a ver. Confirmou-se, o filme era de facto estranho. É um daqueles filmes com muitas peripécias que lembra o After Hours de Martin Scorsese. Até está bem escrito e bem realizado por Shane Black mas por ter tantas peripécias a acontecer e a alterar o curso da história acaba por ficar algo desconexo. Em alguns momentos é mesmo muito bom, mas também tem partes em que chega a roçar a comédia fatelosa.
O que notei de mais estranho é o facto dos dois actores parecerem que não estavam ali a representar nenhum papel. Robert Downey Jr. está como peixe na água; não estava a representar, estava só ali, a ser ele próprio, a dizer umas deixas na sua maneira muito particular. Já Val Kilmer parece que entrou no filme para gozar consigo próprio, com o papel e, já agora, com toda a sua carreira. Pareceu-me mais um acto de reabilitação para os dois actores do que outra coisa. As piadas constantes entre os dois actores não são nada inocentes...
Kiss Kiss Bang Bang é um filme divertido, estranho, desequilibrado e imprevisível mas que se vê bem. ●●○○○


Os filmes que são excepcionais - os de "6 estrelas" - têm uma coisa muita boa: não é preciso revê-los para comentar. Ficam gravados na memória e isso ajuda muito quando se tem um blog de cinema.
Como estranhamente estamos a reviver (e muito) a lógica Orwelliana, acabei de rever mentalmente Animal Farm (1954), um clássico de animação, reservado a adultos. E sublinho o reservado a adultos pelo simples facto de que é impossível explicar a acção deste filme a uma criança, além de me parecer totalmente inapropriado. Bem, se calhar estou a projectar os meus traumas... Lembro-me bem dos gritos do burro Benjamin enquanto corria atrás do carro que leva o amigo Boxer para o matadouro, depois de ser vendido pelos porcos. Como é que se explica isto a uma criança sem a traumatizar? A primeira vez que o vi, tinha para aí uns 13 ou 14 anos e apesar do aspecto similar da animação, percebi rapidamente que não estava a ver um filme Disney. Além disso, obviamente, faltavam-me as bases de conhecimento político e social para entender esta fábula. Como seria de esperar, levei uma "pancada na cabeça"...
O filme baseia-se no livro de George Orwell de 1945 com o mesmo nome e é tão conhecido e está tão enraizado na cultura popular que nem vale a pena escrever mais sobre o assunto. Animal Farm é uma exposição mais ou menos dissimulada de como o ideal comunista se desmorona/desmoronou com o tempo e se torna/tornou uma ditadura tão ou mais brutal como a organização social que a precedeu.
Facto pouco conhecido (pelo menos para mim e que só descobri enquanto pesquisava sobre o filme) é que George Orwell, autor do também mundialmente conhecido "1984", chamava-se realmente Eric Arthur Blair. Mas, como eu digo sempre, isso não interessa para nada. O que interessa é que tanto o livro como o filme são óptimos.
Gosto de simbolismos, daí que este filme seja um dos meus filmes de eleição. Há obviamente comparações directas e sobreposições das figuras históricas, como por exemplo Napoleon que é na verdade Estaline; o embriagado dono original da quinta, Jones, que é Nicolau II e Snowball que é Trotsky. Menos consensual é Old Major que tanto me parece ser Lenine como Karl Marx, mas se calhar é mesmo uma mistura dos dois. Figura também dúbia é Pilkington que parece ser uma mistura do bloco Estados Unidos/Inglaterra. Toda a gente tem as suas teorias e todos com quem comentei o filme têm ligeiras nuances sobre quem é quem e sobre o que se trata verdadeiramente Animal Farm. Há meia internet a discutir os mais ínfimos pormenores e tudo o que gira em volta dos simbolismos do filme.
De todas as comparações e simbologias desta fábula destaco especialmente quatro: Boxer, Benjamin, Mr. Whimper e o gato.
O cavalo Boxer é uma excelente representação da massa trabalhadora anónima e também uma ferramenta indispensável dos governantes e dirigentes. Infelizmente, tal como qualquer outra ferramenta, Boxer, possui as mesmas características, podendo ser bem ou mal utilizado. Assim que a sua utilidade se vê reduzida devido a um acidente de trabalho na construção do farol do regime - o moinho -, Boxer é vendido sem complacência. Parece óbvio deduzir, que independentemente do estilo de governação, a massa trabalhadora é uma massa capaz de elevar o orgulho colectivo, mas que também acaba por ser uma das responsáveis pelo crescimento desmesurado e desregrado de regimes autoritários e das suas manobras de propaganda. Ainda assim, Boxer traduz-se naquela massa humana, que apesar de discordar das ideias dos governantes devido a uma análise atenta que faz da sociedade que o rodeia, acaba por se sacrificar pessoalmente perante as necessidades do colectivo, na esperança que o seu trabalho resulte num futuro melhor para todos.
Benjamin, o burro, simboliza uma parte da massa trabalhadora, tal como Boxer. A diferença entre eles parece ser apenas uma questão de inteligência e percepção da realidade. Como quem diz, esta é aquela parte estúpida que responde sempre com um enorme sorriso e um sonoro obrigado, quando lhe oferecem umas míseras cenouras... que foi ele que pagou. Companheiro inseparável de Boxer, Benjamin é, por assim dizer, mais "curto de vistas". Apesar de trabalhar lado a lado com Boxer e de ter a mesma capacidade de trabalho e sacrifìcio, Benjamin faz uma análise menos objectiva da sociedade (ou nem chega a fazê-la) e deixa passar em branco muitas das atrocidades do regime. Ou não quer ver o que se passa ou está desatento. Apenas no momento em que perde o seu melhor amigo é que finalmente percebe que quem o governa é afinal um inimigo interno, igual ou pior que as ameaças externas. Só perante uma situação extremamente grave e que o implica directamente, é que esta "massa trabalhadora" consegue de facto pôr de parte o cinismo com que olha para a situação e percebe que tem de arregaçar as mangas e fazer alguma coisa para mudar o rumo aos acontecimentos.
Mr. Whimper, o intermediário entre animais e humanos, com o tempo foi-se tornando numa das personagens mais interessantes. Convém lembrar que o filme é de 1954 mas o livro tem data de publicação de 1945 e foi escrito ainda antes dessa data. O grande mundo corporativo dava os primeiros passos globais enquanto a sociedade cambaleava do meio de duas guerras mundiais, e em que a União Soviética ainda era, para todos os efeitos, uma Aliada, facto esse que, obviamente, dificultou a publicação do livro. Mas, analisando a continuidade das personagens no tempo para lá do representativo do livro/filme, Mr. Whimper é um dos poucos que mudou e cresceu em importância. No filme, é uma pequena personagem que lucra com os produtos que saem da quinta e lucra o suficiente para ser olhado com desconfiança pelos outros donos de quintas. O seu papel fica por aqui, mas se houvesse uma sequela do Animal Farm e as sobreposições históricas fossem continuadas, Mr. Whimper seria sem dúvida a personagem de topo no momento, representativa do aparecimento de uma nova força espelhada no comerciante obcecado pelo lucro. A semente da era actual do gigantismo corporativo global, sem fronteiras, e do capitalismo puro e duro é o Mr. Whimper! Ele rege-se apenas e só pelo dinheiro. São-lhe indiferentes os regimes polìticos, as pessoas, os papéis e as leis. Nada é tão importante quanto o dinheiro e lucro. Não importa a sua origem, desde que o destino seja o seu bolso. Extrapolando o conteúdo do filme, facilmente se pode imaginar que por muitas voltas e reviravoltas que aconteçam na "gestão" da quinta, mais cedo ou mais tarde, Mr. Whimper acabará por ser o "chairman of the board" da grande empresa que irá comprar Animal Farm. E se isso acontecesse, uma grande parte da quinta iria ser transformada numa área de belos condomínios e todos os animais estariam cobertos de impostos e burocracia. Se calhar estou a a extrapolar demais, mas como tudo é cíclico, veremos... Pode ser que um dia haja um Animal Farm 2...
O Gato, o qual desconheço o nome, é talvez a única não-personagem e uma das minhas preferidas. Já vi muitas teorias que apontam em várias direcções quanto ao que o gato poderá representar. A única coisa certa é que o gato está lá. Não está presente nos grandes acontecimentos, mas acaba sempre por cruzar a acção. Não participa mas também não está excluído. Quem é este misterioso gato? Será um símbolo dos excluídos da sociedade? Um apátrida? Será um refugiado ou um exilado de outra "animal farm"? Será um nómada, já que não parece pertencer ou ter grandes relações com o colectivo? Será um daqueles anarquistas sempre vestidos de negro, a trabalhar sorrateiramente nos bastidores? Nem sequer se percebe muito bem se apoia os "bons" ou os "maus" e a certa altura até apoia os dois lados. Na minha opinião, tal como na vida real, o gato não tem uma finalidade escondida, nem sequer representa nada em especial. Apenas representa o seu papel: o de ser gato, a olhar por si, a tentar passar despercebido sem causar grande alarido e mais nada. Com tudo o que isso tem de bom e de mau. Num filme com tanto simbolismo, é a única personagem que se representa a si própria. Como sempre, os gatos são superiores...

Tantos anos depois da sua estreia, Animal Farm, continua a ser uma referência, quanto mais não fosse, por ser a primeira longa-metragem de animação inglesa (mas também já li que foi a segunda!), muito por culpa da força criadora e visionária do casal-autor, Joy Batchelor e John Halas. Referência ainda para Maurice Denham, que teve o trabalho hérculeo e excepcional de fazer as vozes de todos os animais.
Animal Farm não é um filme de 6 estrelas pelos atributos técnicos avançados, mas porque de certa forma parece ter sido concebido quase como um manifesto intemporal. É inegável que é na história excepcional de George Orwell que reside toda a força do filme. De uma forma estranha, Animal Farm muda conforme os olhos de quem o vê e muda à medida que o expectador vai ficando mais velho. Mais estranho ainda, é Animal Farm conseguir ser simples e complexo ao mesmo tempo.
Revi-o mais tarde e por diversas vezes, e só aí percebi alguns dos paralelismos desta fábula com a revolução comunista e consequente degeneração de um ideal que aparentava ser uma alternativa. Esta característica de sobreposição da realidade fez com que o filme ficasse infelizmente preso no tempo. No entanto, e como tudo indica, a História parece ser cíclica, o que quer dizer que Animal Farm volta a estar actual. Já se fala novamente numa nova Guerra Fria. Vamos lá a ver se ninguém se lembra de levantar "muros" ou "cortinas" outra vez...
É de referir que há diferenças entre o filme e o livro, nomeadamente no final. Não sei se foi uma tentativa de aproximação mais light para dar um final um pouco mais feliz, ou se como já li numas teorias da conspiração, a CIA comprou os direitos e usou o filme como propaganda anti-comunista... Sinceramente não sei. O que sei é que quando se pega em simbolismos políticos, a história nunca é simples...

Como curiosidade, enquanto procurava um trailer encontrei... o filme inteiro disponível no youtube. Em tempos, Animal Farm já foi difícil de se encontrar no mercado português, mas agora está por todo o lado. É uma oportunidade de ouro para (re)ver um clássico que é muito mais que um filme de animação. É uma lição de história para quem tem olhos instruídos, um exercício mental de projecção do futuro e um acto contínuo de reflexão. Como obra de cinema é simplesmente único, incomparável, intemporal, obrigatório, mas acima de tudo, genial. ●●●●● + ●

Não. Não tem nada a ver com "aquela" cena dos 1% mais poderosos que controlam tudo e todos. Isto é sobre a teoria do 1 porcento (ou por cento?) dos filmes que são verdadeiras obras primas. Já por aqui expliquei como classifico todos os filmes que vi. Se alguém tiver paciência para os meus longos textos pode ler sobre isso aqui.
Dentro das avaliações, há uma classe de filmes muito particulares: aqueles que, do meu ponto de vista, preenchem todos os requisitos como obra cinematográfica e ainda têm algo mais: os filmes de "6 estrelas". (sim, estrelas, apesar de eu usar "bolas", mas isso é só porque não ainda consegui perceber como introduzir os símbolos correctos sem desconfigurar o texto...)
Ao longo do tempo, percebi que não existem assim tantos filmes deste gabarito. De todos os filmes que vi até hoje, se calhar, os de "nota 6" resumem-se a poucas dezenas. E como sou um gajo que tem sempre muitas teorias, automaticamente desenvolvi uma, que me diz que só de 100 em 100 filmes é que aparece um daqueles filmalhaços que nunca mais se esquece e que ficam para a história. Sinceramente, não sei se a teoria está certa. Nunca tive a oportunidade de a testar.
Mais uma outra coisa boa que saiu do facto de comentar os filmes num site: permite-me contabilizar e assim testar a teoria. Como o site chegou ao centésimo filme, para comemorar, vai já a seguir um desses filmes de "6 estrelas"...
Esta é uma série de filmes de ficção científica que não sendo propriamente maus, podiam ser melhores. São filmes que falham essencialmente porque os conceitos não são originais. Apesar de estarem muito bem feitos, bem dirigidos e sempre com bons actores, uma pessoa está sempre com aquela sensação de "já vi isto antes"... E é verdade. Por vezes, até parecem misturas de filmes. Estão bem realizados, as histórias, apesar de pouco originais têm algum nexo e pelo menos não são festivais ocos de acção, explosões e de efeitos especiais digitais só para encher tempo de filme e vender pipocas. Não vão figurar na história do cinema, mas vêem-se muito bem. Mais uma visualização com recurso à técnica intensiva.

Moon
Clones, solidão, perda de identidade e twist. Um mix de The Island e Silent Running. O melhor de Moon é mesmo o tour de force de Sam Rockwell, que literalmente faz uma longa metragem sozinho. O filme entra naquela categoria de filmes que se desenrolam muito lentamente. O twist final é relativamente surpreendente, mas lá está, parece que "já vi isto antes"... Com um orçamento minúsculo, o realizador Duncan Jones conseguiu montar um filme com pés e cabeça. Fico à espera do próximo filme. ●●○○○


In time
In time não é um mau filme, mas não consegui deixar de pensar em como toda aquela história parecia um enorme deja vu. O tempo como moeda até é original, mas fez-me lembrar em demasia no clássico Logan's Run e no esteticamente espantoso Gattaca, que por acaso até é do mesmo realizador, Andrew Niccol. O tempo está a acabar e, mais uma vez, uma luta de classes "contra o sistema", num futuro distópico. Já enjoa um bocado. E além disso, o filme por vezes perde-se na complexidade do tempo, ou seja, há ali alguns buracos no argumento. ●●○○○


Looper
Não sei se é por ter o Bruce Willis e a temática ser a das viagens no tempo, mas não consegui descolar de 12 Monkeys. Mas neste caso, o problema nem sequer é a falta de originalidade do tema. O problema é o tema. Não gosto particularmente do time travel porque quando se entra nesse campo, tudo fica confuso e nada é impossível em termos de história. É plausível voltar atrás e reescrever a história, não é verdade? Isso normalmente emaranha as histórias de uma forma que nunca acabam bem. Até a saga Terminator acabou por se deteriorar, portanto está tudo dito... Looper sofre exactamente do mesmo mal, pois acaba por criar paradoxos impossíveis. Joseph Gordon-Levitt está sempre bem em qualquer filme. ●●○○○


Elysium
Esperava muito de Elysium e em particular de Neill Blomkamp, depois do excelente District 9. Mas mais uma vez, o filme volta à desigualdade entre ricos e pobres, aos bairros de lata (que até parecem os mesmos de District 9), à luta de classes no futuro distópico. Não pode haver exemplo maior da falta de originalidade se nem sequer é preciso sair da própria filmografia. Parece que Neill Blomkamp ficou preso nas suas próprias ideias e imagens. Vi há pouco tempo um trailer de Chappie (que ainda não vi) e fiquei pasmado ao ver como os robots desse filme são iguais aos deste... Espero que Blomkamp acorde para a vida. Os seus filmes até são bons, mas estão a sair todos iguais... Matton Damon is everywhere e Jodie Foster nunca falha. ●●○○○


Automata
Mais uma história da Inteligência Artificial que se torna consciente e a determinado ponto até se torna mais humana que os próprios humanos, e que nos remete para a questão fulcral: o que nos torna humanos? O filme até seria engraçado se já não tivessem sido feitos 235.894.341 filmes com o mesmo tema e a mesma história. Não entendo esta panca de voltar a fazer sempre a mesma coisa. Antonio Banderas até me surpreendeu no papel de um funcionário de seguros do futuro, mas provavelmente é só por parecer mais velho e sem aquela áurea de galã-macho-latino. Automata tem uma boa estética e até "rola bem" mas não acrescenta absolutamente nada de novo. Fica a curiosidade de ver um novo projecto de Gabe Ibáñez. ●●○○○


Control é um filme extremamente "polido" e muito bom. Tanto em termos de construção da narrativa, como obviamente de imagem. Vindo de Anton Corbijn, um dos melhores fotógrafos do mundo da música, não é de estranhar que Control tenha uma fotografia espectacular. A opção estética do preto e branco foi muito bem conseguida e encaixa-se perfeitamente no retrato trágico duma história como esta.
Baseado no livro da mulher de Ian Curtis, a história de Control conta o percurso do líder dos Joy Division, desde os tempos da escola, passando pelos meandros da inspiração, construção e sucesso da banda e das suas músicas, até ao final prematuro e trágico aos 23 anos, e espelha muito bem o desmorenamento e as divisões internas do vocalista.
Sou um grande fã da música dos Joy Division. Até gostava da banda ainda antes de conhecer a música propriamente dita. É estranho, eu sei, mas, os Joy Division, precisamente pela história que rodeia a banda, têm uma áurea estranha e depressiva que aproxima sempre os adolescentes. E eu não fui excepção. Quando uma pessoa é mais nova e ouve alguém a dizer que há uma banda muito boa, em que o vocalista se suicidou, há imediatamente uma ligação e uma pessoa tem que a ouvir e conhecer melhor. Foi o que aconteceu. Por acaso quando ouvi os primeiros discos nem sequer gostei muito. Só mais tarde é que consegui encaixar a sonoridade muito particular dos Joy Division que é uma música fora do normal e demasiado adulta, tanto na sonoridade como nas letras para ser entendida por adolescentes... É muito atmosférica mas ao mesmo tempo frenética. Tem muita pedalada, como se diz na gíria. É um bocado como o próprio Ian Curtis e a sua história pessoal e artística. Se o filme o retrata correctamente, trata-se de uma pessoa numa viagem de montanha russa, alternando, entre altos muito altos e baixos muitos baixos. Passa-se rapidamente dum imobilismo depressivo para uma eufórica velocidade da luz.
Li algumas coisas sobre o assunto e sempre se falou em epilepsia e bipolaridade. Umas vezes estamos bem e outras estramos mal. Mas a vida não é mesmo assim? A diferença é que algumas coisas tem "poder de encaixe" para essas mudanças abruptas e outras nem por isso. Tal como tantos outros, lidar com a fama, o protagonismo e ser a cara duma grande banda, reconhecido e adorado por milhões, deve dar um bocado cabo do miolo. Presumo que isso deve mexer com tudo cá dentro. Há quem viva para isso, mas também dá para perceber que há quem não aguente e acabe por mergulhar na depressão. E a conhecida disponibilidade de drogas, álcool e afins nos bastidores do mundo da música também não deve ajudar nada...
Já não é a primeira vez que um líder de uma banda icónica acaba desta maneira. Deve ser sina dos grandes autores. Ou então é isso que os põe na galeria dos "grandes". Morrer jovem e no pico da carreira musical é o primeiro passo para se tornar numa lenda. Jim Morrison, Kurt Cobain, Michael Hutchence, Ian Curtis e a lista continua... Mas isto é outro assunto...
Para além da fotografia e da realização estilizada de Corbijn, o que mais gostei em Control foi o ritmo. O filme consegue retratar na perfeição os altos e baixos de Curtis e está sempre muito bem encaixado nos grandes temas dos Joy Division. Se o filme pudesse ser comparado a uma música, seria sem dúvida a Transmission. Mas também podia ser a Atmosphere. Ou Love Will Tear Us Apart. O filme está tão bem feito que se calhar até podiam ser todas.
Mas acima de tudo, o filme vale pela brilhante interpretação de Sam Riley. Excelente. Posso dizer que até me mete impressão. Quem conhece as actuações de Ian Curtis fica arrepiado. A forma como Riley consegue replicar todos aqueles tiques estranhos, os movimentos frenéticos, o olhar e até as expressões é absolutamente impressionante. Fica a pergunta: onde é que desencantam estes actores desconhecidos? Dificilmente outro actor conseguiria fazer melhor.
Control é um bom filme para fãs dos Joy Division, do Ian Curtis e não só. É um filme para quem gosta de bons filmes. ●●●●○

The Quick and the Dead é um western que vai buscar o título a uma frase bíblica que resume o facto de todos nós, mais cedo ou mais tarde, sermos julgados pelos nossos pecados, quer estejamos vivos (the quick) ou mortos (the dead). É bastante apropriado, visto que toda a história gira duma sádica competição tipo torneio, mas envolvendo um duelo de armas até à morte, mano a mano. Mais western que isto não pode ser... O título é algo dúbio já que também se aplica à rapidez do dedo no gatilho. Nos westerns e em particular nos duelos, a rapidez a sacar e disparar é o que separa basicamente os vivos dos mortos... Mas as referências bíblicas estão lá todas, como por exemplo a personagem de Gene Hackman se chamar Herod ou Russel Crowe interpretar um padre, arrependido, depois de anos como bandido.
À primeira vista, até pode parecer, mas o filme não tem grande história. Por vezes até se torna repetitivo e copia (ou inspira-se?) mais noutros westerns do que arranja material original. É um filme com mais estilo do que substância. Mas ainda assim tem duas coisas muito boas: a parada de estrelas e a realização.
Em relação a actores é só ver a lista: Sharon Stone (que fica bem em qualquer situação ou papel), Gene Hackman (um "senhor" do cinema que não precisa de apresentações), Russell Crowe (um actor razoável, inflacionado por "filmes de óscares" mas que aqui até escapa), Leonardo DiCaprio (tão novinho que ainda era a perdição das teenagers-coleccionadoras-de-posters-da-Bravo) e Lance Henriksen (um gajo cheio de estilo seja em que filme for).
Mas o que mais salta à vista em The Quick and the Dead é a realização de Sam Raimi. Por vezes não se percebe muito bem porque é que alguns realizadores se destacam e outros não. Sam Raimi é um caso particular e de estudo. Ele conseguiu criar uma estética, mas acima de tudo, uma linguagem visual própria e original que aparentemente funciona em qualquer género de filme. Criou essa linguagem para o excelente Evil Dead e foi um sucesso. Mais tarde aplicou a mesma receita com super-heróis (ainda que com um lado bastante negro) em Darkman. (percebe-se como Raimi aparece anos mais trade a dirigir a saga Spider-Man). Mas essa lógica visual continua a funcionar até num western verdadeiramente à moda antiga. E funciona sempre muito bem. É um tipo de realização tão particular que mesmo quem não saiba quem é o realizador consegue facilmente identificá-lo graças à estética. Acho isso incrível. 
The Quick and the Dead não é nada de espectacular ou muito memorável, mas entretém sem ser totalmente desmiolado. Vê-se bem. Para quem é um fã do Sam Raimi ainda se vê melhor. ●●○○○


O polícia Sean Archer (John Travolta) e o criminoso Castor Troy (Nicolas Cage) são inimigos mortais e depois de uma perseguição, Castor acaba em coma. Apenas Pollux (Alessandro Nivola), irmão de Castor sabe a localização de uma bomba química que pode destruir a cidade de Los Angeles. A única solução é recorrer à ficção científica e trocar de cara (!?) para conseguir extrair informações. Assim, Travolta (o bom) troca de lugar com Cage (o mau). As coisas complicam-se quando Troy desperta do coma e assume o lugar de Archer na sua própria vida. É esta troca de lugares que torna Face Off muito interessante.
Os actores principais têm "química" e foram muito bem escolhidos, pois ambos têm imenso "crazy eye". São perfeitos para este tipo de filme. Até John Travolta está bem, o que é uma raridade. E também parece que se divertiram imenso a insultar-se e a gozar com os maneirismos típicos de cada um. Isto forma um veículo perfeito para as cenas de acção cuidadosamente coreografadas, quase como se fossem cenas de um bailado moderno.
Face Off tem tudo para ser uma chachada de acção, perseguições, explosões e porrada, mas de alguma forma, John Woo consegue exagerar de tal forma as coisas que ficam sempre cool. De certa forma até lembra um bocado aquele estilo tipo James Bond. Com tudo o que tem de moralmente discutível, Woo é um dos poucos realizadores que consegue realmente estilizar a violência. Ele e Tarantino, que deve ter visto toneladas de filmes de John Woo. Não é de estranhar que Tarantino tenha ido parar a Reservoir Dogs ou Kill Bill... Mas isso é outra história.
Talvez por causa dessa atenção à estética, Face Off é um grande filme de acção, que sai completamente fora dos parâmetros normais, mesmo tendo por base uma história totalmente disparatada. Mas aqui o importante nem é a história, mas sim o desenrolar da acção. E aí, Woo acertou em cheio.
Quem já viu alguns filmes de John Woo apercebe-se que há particularidades estéticas que são uma autêntica imagem de marca: o uso (exagerado) da câmara lenta; o estilo "mexican standoff", que normalmente envolve dois ou mais protagonistas a apontar armas directamente à cabeça uns dos outros, algo que parece tão Tarantino mas que é na realidade muito Woo; o uso recorrente das pombas brancas (em câmara lenta, claro) antes duma grande cena de acção ou tiroteio; também é normal as personagens usarem sempre duas armas em punho e não conseguirem evitar disparar em vôo.
Mas o mais importante em Face Off até nem são os actores, a história e nem sequer as fantásticas cenas de acção verdadeiras, "à moda antiga", com duplos a sério (às vezes penso se muitos destes duplos não ficam gravemente feridos a fazer algumas cenas). O mais importante neste filme é o contexto.
Face Off foi um sucesso enorme (entre público e crítica especializada, o que é muito raro) e isso deveu-se essencialmente ao facto de ser diferente de todos os outros filmes de acção. É daqueles filmes, que apesar de parecer "normal", acaba por ter qualquer coisa que o torna fixe. Não se nota o que é, mas há algo distinto em Face Off.
Esse factor distintivo é a inspiração "a dar a volta". Este foi o terceiro filme de John Woo em solo americano. Mas quem teve a paciência para ver maratonas de filmes de acção coreanos, chineses ou de Hong Kong, percebe que este não é um filme americano. Woo continuou a filmar como se estivesse em Hong Kong, sendo que a única diferença é que o filme é falado em inglês e feito com actores ocidentais. Mas todas as "regras" são orientais.
Depois de anos a produzir filmes de artes marciais para o mercado ocidental, o cinema oriental mudou e foi buscar inspiração aos sítios mais estranhos como o spaghetti western ou os policiais dos anos 70. Como as produções orientais parece que não existem e não chegam a ser distribuídas nos circuitos ocidentais (tirando, lá está, os filmes de artes marciais), parece que esta mudança nem sequer existiu. Alguém associa o género de ação ou policial ao cinema oriental? Não me parece. Até que John woo chegou a Hollywood e começou a filmar. O resultado são filmes de acção "estranhos" e que apesar de pareceram iguais aos restantes, são muito diferentes do habitual. E essa foi a principal marca que Face Off deixou. Dentro do género dos típicos filmes de "tiros e porrada", Face Off é um dos melhores. Vê-se e revê-se sempre muito bem. ●●●●○

 
Filmes que envolvem o elemento água, normalmente "metem água". Os custos de produção, as adversidades técnicas e os prazos que se extendem mais que o normal, costumam corroer estes filmes. The Abyss não foi excepção. Na altura da estreia, foi um flop de bilheteira e, pelo que li, um desastre financeiro. Mas este é um daqueles filmes ao retardador: não foi bem recebido no momento de estreia, mas gradualmente foi ganhando adeptos. Em 25 anos, passou de fracasso a marco da ficção científica.
The Abyss, mais que um grande filme de ficção científica é um filme anti-militarista. É um tema a que James Cameron voltou várias vezes, sendo que o exemplo mais gritante é o bombástico Avatar, que vai buscar imenso material e inspiração precisamente a The Abyss. Mas a versão final (a que estreou em 1989) omite grande parte desta questão. O estúdio mutilou o filme, mas mesmo assim, na versão original cortada, o filme não perde (quase) nada. No entanto, também já li algures que foi o próprio Cameron a fazer os cortes - as cenas cortadas nem sequer estariam prontas na pós-produção -, sacrificando a totalidade da história, mas apenas por razões de duração do filme. Aparentemente, nos anos 80, o público não estava muito receptivo a filmes de quase três horas e os realizadores/estúdios optavam por cortar os filmes nas duas horas. Na versão especial com o corte do realizador, o filme ganha ainda algo mais: uma mensagem política. Não é muito usual blockbusters conterem mensagens políticas, por isso acho que o corte foi mais influenciado pelo estúdio que pelo Cameron... Ainda por cima, no contexto histórico e político da altura...
A história tem toda a lógica. O mundo vivia em plena Guerra Fria, em que parecia que a qualquer momento poderia rebentar uma guerra nuclear entre a América e a extinta URSS. Se se pensar bem no assunto, a única forma de parar um conflito deste tipo, é entrar em guerra (que só terá um desfecho negativo) ou esperar que um dos lados definhe e colapse, que por acaso até foi o que aconteceu com os russos.
Há uma outra solução, uma carta fora do baralho da realidade, que é a de todos se unirem contra um inimigo comum. Este cenário não existe, mas para isso há o cinema. E é aqui que entra a verdadeira ficção científica. E se extraterrestres - o derradeiro inimigo comum - visitassem o nosso planeta? Qual seria o impacto nas nossas relações, neste caso, bélicas? E se eles já cá estivessem, se calhar desde sempre? Onde é que eles se esconderiam, sem que ninguém os visse?
A resposta mais lógica, mas cientificamente mais correcta, só podia ser no fundo do oceano. Tem tanta lógica que acho que James Cameron teve de se meter num submarino e ir lá ver se tinha razão. Há um paralelismo óbvio entre o fundo oceânico e o espaço profundo. Ambos são inexplorados, difíceis de aceder e totalmente inóspitos.
Como filme, The Abyss tem outra qualidade. É intemporal. Tanto pela parte da história bem concebida (e até parece que estamos a entrar novamente numa espécie de Guerra Fria e com os mesmos intervenientes), como pela parte da estética. Sendo praticamente todo rodado num ambiente fechado, dificilmente se consegue datar o filme. Nem os cabelos parecem ser dos anos 80. Há algo nos efeitos especiais que começa a falhar, mas ainda assim, mesmo hoje em dia, desenrascam-se muitíssimo bem. Prova de que Cameron sempre esteve no topo da inovação tecnológica do cinema. E é tudo "verdadeiro", (quase que) não há magia digital. Tudo em The Abyss é a boa e velha magia do cinema a funcionar.
Ironicamente, Cameron que sempre se expressou como muito preocupado com o rumo da tecnologia e seu o impacto na sociedade, tem sido ele mesmo, o grande inovador, recorrendo sempre à mais moderna tecnologia para fazer os seus filmes. Neste caso, uma das grandes inovações tecnológicas foi aquela cena da água que ganha vida e percorre o interior da estrutura. Até aquela altura foi a maior cena digital presente num filme.
Quanto a actores, James Cameron aposta (quase) sempre em actores de "segunda linha". Mas "segunda linha" não quer dizer que sejam maus. Quer dizer que não são as grandes estrelas do momento, apenas excelentes actores. The Abyss é mais um desses exemplos. Ed Harris, Mary Elizabeth Mastrantonio e também Michael Biehn fazem uma tripla excelente que só acrescenta valor ao filme. Especialmente Ed Harris, um daqueles actores que é ao mesmo tempo muito credenciado e muito menosprezado.
Recordo-me em especial de uma cena em que a morte da personagem de Mastrantonio parece eminente, para não dizer definitiva. Muitos filmes têm esta cena clichê em que o protagonista quase morre, ficando inconsciente, e depois há aquele suspense no ar para saber se morreu ou não. Normalmente, toda a gente percebe que é só uma pausa e que a qualquer momento o "artista" vai voltar à cena a respirar ofegantemente. É um clichê, lá está. Toda a gente sabe o que acontece. Mas neste caso, Cameron fez a melhor cena de todas. É assim que todas deviam ser feitas. Tem uma intensidade dramática que é invulgar para filmes deste género. O que só demonstra como James Cameron é um excelente realizador de "efeitos especiais", mas também um excelente director de actores. E claro que os actores serem muito bons também ajuda. Sempre que me lembro de Ed Harris, lembro-me da interpretação (e realização!) de Pollock e desta cena em particular. Muito bom.
Na versão original ou com o corte do realizador, The Abyss é um dos meus filmes preferidos. É cinema e ficção científica no seu melhor, repleto de imaginação, fantasia, com uma grande história, paralelismos com a realidade, acção, bons efeitos especiais, com excelentes actores e uma mensagem bem vincada e pelos vistos, sempre actual. Um "James Cameron" intemporal e obrigatório. ●●●●●

The Rover é um filme estranho. Não consigo classificá-lo muito bem e nem sequer percebo se gostei ou não. É estranho. Não sei muito bem se é um filme pós-apocalíptico, se é um western moderno ou um thriller. Se calhar é um daqueles western-thriller-pós-apocalípticos... Por vezes pareceu-me algo original e outras vezes pareceu-me uma prequela de Mad Max. Gostei muito dos actores e da história mas não consegui suportar o ritmo do filme. É estranho.
Num futuro próximo, a sociedade colapsa, a lei desintegra-se e a Austrália mergulha na anarquia. (Eu disse que parecia uma prequela do Mad Max...) A história segue o percurso de Eric (Guy Pearce), um homem de pouquíssimas palavras e endurecido (à velha maneira dos westerns) pela perda da mulher e basicamente tudo o resto que fazia parte da vida anterior ao colapso. A única coisa que lhe resta é o carro, que acaba por ser roubado por um gangue de desordeiros. Nesse incidente, ganha a companhia de Reynolds (Robert Pattinson), um rapaz com alguns "problemas", que pertencia ao gangue, mas que foi deixado para trás como morto. Um vai tentar recuperar o seu carro, o outro vai tentar encontrar o irmão que o abandonou.
Não é propriamente uma história muito original, mas até está bem tratada em termos de narrativa. O principal problema é o ritmo do filme. Quase que se me parou o coração. O filme literalmente  a a r r a a s s t a - s s e   n n o   t t e m m p o o. Para mim, é exagerado. Devido ao ritmo extremamente lento, The Rover acaba por se transformar num gigantesco anti-clímax sem fim. Chega a ser exasperante. Se calhar a intenção era mesmo essa, mas para mim não funcionou...
O sinal mais vai claramente para as prestações dos dois actores principais que estão soberbos. Fazem o filme praticamente sozinhos. Guy Pearce já há muito que mostrou ser um bom actor e dispensa apresentações, mas o que me surpreendeu mais foi mesmo o Robert Pattinson. Afinal, o rapaz não é apenas um teenager-vampiro... Está excelente.
O realizador, David Michôd, pelos vistos, teve uma excelente crítica ao anterior filme, Animal Kingdom, mas ainda não o vi. É a única coisa que conheço deste realizador. Pelo que vi em The Rover, até parece que é um autor que promete. Há muito bons pormenores espalhados por aqui e uma visão diferente do normal. Mas o ritmo do filme... estraga tudo. ●●○○○

 
Copyright © 2015 todos os filmes que vi
Distributed By Gooyaabi Templates